Uma Super Bock, claro, e talvez, não sei, um daqueles folhados. O objectivo era a cerveja, mas são horas de jantar, e o estômago vazio agradece decerto o folhado acrescentado à encomenda. Por entre a bebida e a mastigação, reparo numa mosca que se passeia pelo tampo de vidro do contador, e que circum-navega os círculos de cerveja deixados pelo copo transbordado. Sopro-a para a convencer a voar, mas ela não parece disposta a tal, é bem possível que leve já um grãozinho na asa.
Outra cerveja, já sem o álibi alimentar, pois não me apetece comer mais folhados, e a mosca parece concordar comigo, quando esquiva as migalhas do pastel e submerge, de probóscide em riste, no lago ampliado da cerveja. Consumo a minha própria bebida enquanto ela mal fez mossa na sua, são estas as consequências de se pesar mais de uma centena de quilos, em vez de meros miligramas. Farto de cerveja, encomendo um brandy!
A mosca descobriu o brandy, e caminha agora para ele, com aquele passo hesitante que o álcool de uso impõe ao espírito virado para a reflexão. Parece lançar contas à sua vida, sem que a soma lhe agrade particularmente. Supomo-la a pensar no moscardo com quem saiu duas ou três vezes, e que impulsivamente expulsou da sua vida, quem sabe se terá sido sensata. Ele bem mostrara não ser digno de confiança, mas a sua companhia divertia-a, não teria sido talvez melhor mantê-la, e o que é que eu estava a pensar, que me perdi agora? Num passo arrastado, a mosca adentra o círculo de brandy, que começa a percorrer num circuito degustativo. Farto-me de a contemplar, e dedico-me à televisão, que transmite um jogo de futebol. Farto-me ainda mais disso, e volto à mosca, em atenção a quem peço outro brandy.
Agora sou eu que penso na vida, com todas as suas complexidades. Cada aspecto novo leva-me a beber mais um golo, e depressa a soma dos aspectos esgotou o cálice. O que sobrou está sobre o balcão, na forma de um círculo que a mosca pesadamente percorre. O meu espírito brinca ainda com a ideia de mais um cálice, mas verifico que exauri já os meus recursos, pelo que pago a conta e me preparo para sair.
Lanço ainda um último olhar à mosca, que percorre sempre a mancha de brandy, como que a lembrar-me ironicamente que até para ser um bêbado é preciso ter dinheiro. Isso, ou ser um artrópode.
Há que enterrar os nossos palhaços, se queremos manter um ar sério... até os elefantes, antes de morrer, têm o cuidado de o fazer em sítio adequado...
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segunda-feira, 11 de julho de 2011
terça-feira, 28 de junho de 2011
Outono
Começo a convencer-me que é uma lei da natureza – eu e as estações do ano não nos damos bem. De quantos Dezembros cantei já os dias de sol brilhante e frio, a árctica emulação de um Verão primaveril, o despontar de promessas fora de tempo? E agora que o Verão se estabeleceu em toda a sua abrasadora canícula, que as praias estalam de corpos grelhando no estival braseiro, não é que dou por mim descendo uma rua de Outono, entre arvoredos doirados e fulvos, a que uma brisa fresca vai já desfolhando a chama e o ouro?
É uma jornada alegre e bem-disposta, assim empreendida entre amigos e amores, bem cercado dos favores e lealdades em que um coração se compraz. Os troncos que balizam a vereda que desce para o mar adoptam posturas quase bonacheironas, assim grossos e nodosos, exibindo com deleite as suas cabeleiras de fogo. Apoio-me ao ombro que me ladeia, mas escorrego, o ombro não está lá. Um choque, decerto, e um desequilíbrio, mas há sempre outro lado onde me posso apoiar. E assim a jornada prossegue, coxa decerto, mas sempre feliz. E as árvores soltam como sempre as suas folhas de Outono, e guardam as suas cabeleiras de chama.
Vem depois um dia, o dia inevitável, em que todo o apoio se desvanece. É chegado o tempo de compreender que ninguém desce comigo a rua do Outono, que só com dois ombros posso contar, e esses são os meus. E espanto-me então da minha arrogância, de ter pensado um dia que havia mais do que isso. O Verão é um tempo de camaradagem e amizade, mas todos descemos o Outono sozinhos.
Não faz mal, não é sequer grave. Exige um pouco de tempo, é certo, como qualquer realidade. Cedo compreendo que me cabe descer essa rua direito, sem me apoiar a nada ou ninguém. Muitas vezes cambaleei nessa avenida, onde ainda agora me desequilibrei ao estender a mão para o ombro que não estava lá. Mas já recuperei o equilíbrio, e não corro mais esse risco. Agora sei que estou só, não preciso de confiar em ninguém, nem de voltar a tropeçar.
Perdi uns metros nesta jornada, mas ganhei firmeza. Mentiram-me e recebi a mentira em face, mas ganhei sabedoria. Perdi falsos apoios, ganhando a certeza que o único apoio verdadeiro está em mim.
À minha frente estende-se a longa estrada de Outono, doirada e rubra como o fim de um Verão que ainda mal começou. Sei que a percorrerei até ao fim. Agora já não tenho dúvidas, nem preciso de perguntar a ninguém qual é o meu caminho.
É uma jornada alegre e bem-disposta, assim empreendida entre amigos e amores, bem cercado dos favores e lealdades em que um coração se compraz. Os troncos que balizam a vereda que desce para o mar adoptam posturas quase bonacheironas, assim grossos e nodosos, exibindo com deleite as suas cabeleiras de fogo. Apoio-me ao ombro que me ladeia, mas escorrego, o ombro não está lá. Um choque, decerto, e um desequilíbrio, mas há sempre outro lado onde me posso apoiar. E assim a jornada prossegue, coxa decerto, mas sempre feliz. E as árvores soltam como sempre as suas folhas de Outono, e guardam as suas cabeleiras de chama.
Vem depois um dia, o dia inevitável, em que todo o apoio se desvanece. É chegado o tempo de compreender que ninguém desce comigo a rua do Outono, que só com dois ombros posso contar, e esses são os meus. E espanto-me então da minha arrogância, de ter pensado um dia que havia mais do que isso. O Verão é um tempo de camaradagem e amizade, mas todos descemos o Outono sozinhos.
Não faz mal, não é sequer grave. Exige um pouco de tempo, é certo, como qualquer realidade. Cedo compreendo que me cabe descer essa rua direito, sem me apoiar a nada ou ninguém. Muitas vezes cambaleei nessa avenida, onde ainda agora me desequilibrei ao estender a mão para o ombro que não estava lá. Mas já recuperei o equilíbrio, e não corro mais esse risco. Agora sei que estou só, não preciso de confiar em ninguém, nem de voltar a tropeçar.
Perdi uns metros nesta jornada, mas ganhei firmeza. Mentiram-me e recebi a mentira em face, mas ganhei sabedoria. Perdi falsos apoios, ganhando a certeza que o único apoio verdadeiro está em mim.
À minha frente estende-se a longa estrada de Outono, doirada e rubra como o fim de um Verão que ainda mal começou. Sei que a percorrerei até ao fim. Agora já não tenho dúvidas, nem preciso de perguntar a ninguém qual é o meu caminho.
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