O despertador andava há vários dias com umas cólicas nos ossos, e nesta manhã esqueceu-se completamente de me acordar. Despertei estremunhado ao som gorgolejante de uma potência irracional, e tomei duche como quem lava o seu hamster preferido na esplanada de um café. Enquanto tomava o pequeno-almoço, cismando sobre a razão por que os melros se parecem tanto com as quatro da tarde, apercebi-me de que me tinha esquecido de pôr o cérebro.
De pouco me serviu emendar o meu erro: a maldita coisa continuava a não funcionar. Ainda parecia uma esponja, como nos tempos em que trabalhava, mas agora era uma esponja velha e encardida, gasta de tantas sujidades e barrelas e mais porcarias ensopadas e espremidas e repetidas até que a própria falta de razão deixasse de fazer sentido. Dei-lhe umas pancadas para ver se o espertava, e o cotovelo esquerdo brindou-me com um pequeno pontapé no estômago.
Pareceu-me preferível não lhe mexer mais, e ir dar uma volta. Pus o chapéu, tendo o cuidado de conservar a cabeça por baixo dele, e desci a dúzia de degraus, tropeçando criteriosamente em todos os números primos. Na rua, trotinetas melodiosas esvoaçavam num espaço vetorial que não estava ali na véspera, e é claro que chovia.
Nesse momento empreendi um esforço louvável, ou pelo menos um esforço que eu sem hesitar louvei, para tentar pensar coerentemente, mas a coerência tinha-se afogado uns dias antes, e o artista que nos pinta a vida ainda não tinha desenhado nada que a substituísse. O que restava do meu cérebro indignou-se com a tentativa, e pôs-se a pensar em frangos assados.
Foi nesse ponto que um autocarro saiu de trás da quinta sinfonia e me atropelou, deixando-me feito em pedaços. O dia estava decididamente a correr mal, e achei melhor limpar o sangue e voltar para casa, onde passei o resto da vida a engraxar velhos teoremas de solas rotas. Deve haver coisas piores para fazer, sobretudo para alguém que esqueceu já de como se faz seja o que for. O cérebro espirrou uma última vez, mas já nem dei por isso.
Há que enterrar os nossos palhaços, se queremos manter um ar sério... até os elefantes, antes de morrer, têm o cuidado de o fazer em sítio adequado...
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
sábado, 12 de outubro de 2013
Parce Sepultis
Tu por aqui? Homem, estava bem longe de te ver. E ainda bem que te encontro, que já me sentia a fazer papel de parvo aqui parado. Estes velórios são uma seca. Eu o que foi, foi terem-me apanhado desprevenido, e já não fui a tempo de inventar uma desculpa. Ouve lá, ao menos sabes quem é o morto?
Sim, eu sei que é o que está deitado no caixão lá ao fundo, não te faças de parvo. Também não conheces? Eu nem sei se conheço se não, disseram-me que era um tipo lá do banco, um gajo que toda a gente conhecia. Eu também sou gente, portanto devia conhecer, mas o nome não me diz nada. Parece-me que ouvi alguém dizer há bocado que o gordo estava cá, mas ainda não o vi. Talvez ele saiba, é gajo para isso.
E o que tens feito, que já não te vejo há meses? Pois, o costume, isso é o que eu também faço. Espera aí, talvez esta aqui saiba alguma coisa sobre o morto. Desculpe, minha senhora, conhece por acaso… não, não conhece. Ninguém conhece, pelos vistos. E contudo dizem que era um tipo conhecido. Por acaso não viu por aí o gordo? Sim, parece que está cá. A fazer o quê? Não faço ideia. Nunca soube o que faz ele. Onde quer que esteja, ninguém sabe nunca quem é ele ao certo, ou o que está a fazer ali. Acho que nem o nome dele sabem, por isso é que todos lhe chamam o gordo.
Fui há tempos a um almoço, e lá estava ele, com o seu ar de palerma bem-intencionado. Era um aniversário, e não estranhei vê-lo ali, mas reparei que toda a gente se afastava um bocado dele, e o olhavam de soslaio, como quem não está bem certo de conhecer ou não uma pessoa. Ainda tentei perceber como se chamava, mas não ouvi ninguém trata-lo pelo nome. Só dias mais tarde é que vim a saber que era ele o aniversariante. Quando o voltei a encontrar, ainda pensei em dar-lhe os parabéns, mas ele disse um disparate qualquer, e perdi a vontade de falar no assunto.
Aparece em todo o lado, e agora que o queremos ver, ninguém o encontra. Afinal ninguém o viu, só dizem que alguém disse que ele estava cá. E isto do morto está-me a fazer espécie. Vou lá dar uma espreitadela.
Não vais acreditar nisto, pá. O gajo no caixão é o gordo! Bem diziam que ele estava cá. Olha, pelo menos agora já ninguém tem de se preocupar em saber o nome dele. Ouve, temos de pôr a conversa em dia. Queres combinar um almoço?
Sim, eu sei que é o que está deitado no caixão lá ao fundo, não te faças de parvo. Também não conheces? Eu nem sei se conheço se não, disseram-me que era um tipo lá do banco, um gajo que toda a gente conhecia. Eu também sou gente, portanto devia conhecer, mas o nome não me diz nada. Parece-me que ouvi alguém dizer há bocado que o gordo estava cá, mas ainda não o vi. Talvez ele saiba, é gajo para isso.
E o que tens feito, que já não te vejo há meses? Pois, o costume, isso é o que eu também faço. Espera aí, talvez esta aqui saiba alguma coisa sobre o morto. Desculpe, minha senhora, conhece por acaso… não, não conhece. Ninguém conhece, pelos vistos. E contudo dizem que era um tipo conhecido. Por acaso não viu por aí o gordo? Sim, parece que está cá. A fazer o quê? Não faço ideia. Nunca soube o que faz ele. Onde quer que esteja, ninguém sabe nunca quem é ele ao certo, ou o que está a fazer ali. Acho que nem o nome dele sabem, por isso é que todos lhe chamam o gordo.
Fui há tempos a um almoço, e lá estava ele, com o seu ar de palerma bem-intencionado. Era um aniversário, e não estranhei vê-lo ali, mas reparei que toda a gente se afastava um bocado dele, e o olhavam de soslaio, como quem não está bem certo de conhecer ou não uma pessoa. Ainda tentei perceber como se chamava, mas não ouvi ninguém trata-lo pelo nome. Só dias mais tarde é que vim a saber que era ele o aniversariante. Quando o voltei a encontrar, ainda pensei em dar-lhe os parabéns, mas ele disse um disparate qualquer, e perdi a vontade de falar no assunto.
Aparece em todo o lado, e agora que o queremos ver, ninguém o encontra. Afinal ninguém o viu, só dizem que alguém disse que ele estava cá. E isto do morto está-me a fazer espécie. Vou lá dar uma espreitadela.
Não vais acreditar nisto, pá. O gajo no caixão é o gordo! Bem diziam que ele estava cá. Olha, pelo menos agora já ninguém tem de se preocupar em saber o nome dele. Ouve, temos de pôr a conversa em dia. Queres combinar um almoço?
domingo, 4 de agosto de 2013
A diferença entre nada e coisa nenhuma
É pequeno o rato,
Caçador o gato,
E palerma o pato.
Mas é já outra coisa
A rata da gata,
Que não tem cheta, e anda à pata.
São palavras, só palavras.
E Deus, que não fez o rato,
Nem o pato nem o gato,
Não é criador de nada.
É só um fala-barato.
Caçador o gato,
E palerma o pato.
Mas é já outra coisa
A rata da gata,
Que não tem cheta, e anda à pata.
São palavras, só palavras.
E Deus, que não fez o rato,
Nem o pato nem o gato,
Não é criador de nada.
É só um fala-barato.
sexta-feira, 7 de junho de 2013
Pausa
Não era um dia bom. Poucos dias o eram, nos últimos tempos, mas aquele estava a ser particularmente mau. Foi trabalhar como em todos os dias, porque era isso que fazia sempre. Teria nesse dia especial dificuldade em responder a quem lhe perguntasse por que razão era isso importante, qual o motivo para continuar a fazê-lo. Ninguém lhe perguntou nada disso, como seria de esperar. Não são perguntas que se façam, ou se devam sequer fazer.
Mas não começou logo a trabalhar. A tristeza não costumava ser um entrave, mas há limites para a quantidade de tristeza que se pode suportar. A tristeza, mas também o vazio, a falta de objetivo. Não porque não tivesse objetivos, mas porque deixara já de acreditar que algum objetivo valesse a pena. Os colegas viram-no sentado na secretária, fitando com olhos mortiços o telefone que tocava, mas ninguém lhe disse nada.
Sentia uma ansiedade estranha, a ânsia do que não podia existir. Não ansiava pelo inatingível, apenas pelo impossível. Algo que desse sentido a uma vida absurda, tão irrelevante como todas, tão oca que nada a podia começar sequer a encher. Procurou uma razão que o impedisse de abrir a pequena faca que guardava na gaveta e cortar os pulsos com ela, mas não foi capaz de achar nenhuma.
O facto é que também não havia qualquer razão para o fazer, num mundo em que não há qualquer razão para fazer seja o que for. Nada mudaria, porque nenhuma mudança permanece. O sangue seria limpo da secretária, coisa que numa perspetiva cósmica nem sequer faria diferença, e o universo continuaria a sua marcha estúpida e acéfala em direção a coisa nenhuma.
Quando não vale a pena fazer nada, o melhor é continuar com o que quer que se esteja a fazer, e no caso dele era o trabalho. O trabalho tem de ser feito, e nem vale a pena perguntar porquê, não se dê o caso de não haver resposta.
Saiu da sua abstração com um suspiro que soprou para longe o universo. Recolheu a tristeza à gaveta das coisas inúteis, aquela gaveta que nunca se abre porque não vale a pena abri-la, e concentrou-se no trabalho. Engoliu o coração que lhe batia na garganta, calmou a respiração que arquejava. A vida era de novo uma coisa normal, desde que não se pensasse demasiado nisso. Com um sorriso quente na voz, atendeu finalmente o telefone: “Linha de prevenção do suicídio, boa tarde. Fale comigo.”
Mas não começou logo a trabalhar. A tristeza não costumava ser um entrave, mas há limites para a quantidade de tristeza que se pode suportar. A tristeza, mas também o vazio, a falta de objetivo. Não porque não tivesse objetivos, mas porque deixara já de acreditar que algum objetivo valesse a pena. Os colegas viram-no sentado na secretária, fitando com olhos mortiços o telefone que tocava, mas ninguém lhe disse nada.
Sentia uma ansiedade estranha, a ânsia do que não podia existir. Não ansiava pelo inatingível, apenas pelo impossível. Algo que desse sentido a uma vida absurda, tão irrelevante como todas, tão oca que nada a podia começar sequer a encher. Procurou uma razão que o impedisse de abrir a pequena faca que guardava na gaveta e cortar os pulsos com ela, mas não foi capaz de achar nenhuma.
O facto é que também não havia qualquer razão para o fazer, num mundo em que não há qualquer razão para fazer seja o que for. Nada mudaria, porque nenhuma mudança permanece. O sangue seria limpo da secretária, coisa que numa perspetiva cósmica nem sequer faria diferença, e o universo continuaria a sua marcha estúpida e acéfala em direção a coisa nenhuma.
Quando não vale a pena fazer nada, o melhor é continuar com o que quer que se esteja a fazer, e no caso dele era o trabalho. O trabalho tem de ser feito, e nem vale a pena perguntar porquê, não se dê o caso de não haver resposta.
Saiu da sua abstração com um suspiro que soprou para longe o universo. Recolheu a tristeza à gaveta das coisas inúteis, aquela gaveta que nunca se abre porque não vale a pena abri-la, e concentrou-se no trabalho. Engoliu o coração que lhe batia na garganta, calmou a respiração que arquejava. A vida era de novo uma coisa normal, desde que não se pensasse demasiado nisso. Com um sorriso quente na voz, atendeu finalmente o telefone: “Linha de prevenção do suicídio, boa tarde. Fale comigo.”
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Horizonte
Um sorriso quente, um olhar amigo, uma mão que se dá com ternura. Um momento fugaz, sempre curto demais, antes que a mão se solte e o olhar se desvie. O sorriso é uma memória, uma recordação que se esvai. A mão fica vazia, e é tudo.
Ou um dia que não se deixa fechar em si mesmo. Há um desejo de agir, de ter alguém, de ser outro que não se pode ser sozinho. Mas não é boa altura, as pessoas têm planos, e o dia das pessoas normais não tem espaços vazios para momentos de improviso. O desejo morre só, e não há mais nada.
Talvez haja noutro dia, talvez haja luz e riso e música que dance connosco, música que não grite sobre o lado sinistro de nós. Mas as luzes vão esmorecer como os risos, a música vai deixar um silêncio que só se preenche com os acordes infernais que entorpecem a mente. O intervalo acabou, e nada fica.
E se ficar alguma coisa, será talvez um beijo. A alucinação multicolor de uns lábios suaves que enlouquecem e transportam para um mundo que não há, e no fim voltamos para onde estávamos, e compreendemos que não voltámos de parte nenhuma. Os lábios separam-se e seguem o seu destino, e é tudo.
Mas pode não ser, pode haver mais. Haverá talvez outros beijos para preencherem o vazio que estará sempre pronto a recebê-los. Uma e outra vez, e outra, até que se fartem e esgotem. Só o vazio permanece intacto, só ele não se esgota nem farta. E para além do vazio, nada mais há.
E cada dia diferente dos outros será sempre igual aos outros dias diferentes. Haverá beijos ou carinho ou emoção, mãos dadas e sorrisos, ou não haverá nada disso. Tanto faz. Nada haverá no fim, nada do que houve ou se esqueceu de haver.
E a este amontoar de coisa nenhuma chamamos uma vida, vida de triunfos e fracassos que nada deixam de si, vida em que cada dia começa sempre vazio do dia anterior, caminhada estrénua do zero para o nada. Um dia a sucessão de dias termina, o vazio acaba como começou, e não haverá mais nada. O esgar fútil que inaugurou a caminhada inútil resolve-se por fim num espasmo de morte, o nada retorna ao nada sem nada entretanto ter sido. E será tudo.
Ou um dia que não se deixa fechar em si mesmo. Há um desejo de agir, de ter alguém, de ser outro que não se pode ser sozinho. Mas não é boa altura, as pessoas têm planos, e o dia das pessoas normais não tem espaços vazios para momentos de improviso. O desejo morre só, e não há mais nada.
Talvez haja noutro dia, talvez haja luz e riso e música que dance connosco, música que não grite sobre o lado sinistro de nós. Mas as luzes vão esmorecer como os risos, a música vai deixar um silêncio que só se preenche com os acordes infernais que entorpecem a mente. O intervalo acabou, e nada fica.
E se ficar alguma coisa, será talvez um beijo. A alucinação multicolor de uns lábios suaves que enlouquecem e transportam para um mundo que não há, e no fim voltamos para onde estávamos, e compreendemos que não voltámos de parte nenhuma. Os lábios separam-se e seguem o seu destino, e é tudo.
Mas pode não ser, pode haver mais. Haverá talvez outros beijos para preencherem o vazio que estará sempre pronto a recebê-los. Uma e outra vez, e outra, até que se fartem e esgotem. Só o vazio permanece intacto, só ele não se esgota nem farta. E para além do vazio, nada mais há.
E cada dia diferente dos outros será sempre igual aos outros dias diferentes. Haverá beijos ou carinho ou emoção, mãos dadas e sorrisos, ou não haverá nada disso. Tanto faz. Nada haverá no fim, nada do que houve ou se esqueceu de haver.
E a este amontoar de coisa nenhuma chamamos uma vida, vida de triunfos e fracassos que nada deixam de si, vida em que cada dia começa sempre vazio do dia anterior, caminhada estrénua do zero para o nada. Um dia a sucessão de dias termina, o vazio acaba como começou, e não haverá mais nada. O esgar fútil que inaugurou a caminhada inútil resolve-se por fim num espasmo de morte, o nada retorna ao nada sem nada entretanto ter sido. E será tudo.
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