terça-feira, 4 de setembro de 2012

Drácula



Sob a égide monumental da torre do relógio de Sighisoara, numa mesa de café que precária se equilibra no lajedo antigo, senta-se o conde Drácula. Aconchegando a capa negra de gola escarlate, cuidando de não manchar a camisa de folhos, o conde beberrica um café. Os lábios vermelhos destoam no rosto caiado, que um chapéu preto ensombra. Pretas são também as calças, a terminar em vulgares peúgas e sapatos decepcionantes.

O mármore comemorativo que a parede ostenta anuncia ao mundo que nesta casa nasceu, por alturas de mil quatrocentos e trinta, o famigerado Vlad Dracul, evento que a humanidade sofredora de bom grado teria dispensado. Este Drácula que agora se senta à porta é bem mais jovem, andará talvez na sua sexta ou sétima década, e causa mais dó que terror. A pintura que lhe branqueia o rosto não chega a ser uma lividez cadavérica, mas dá-lhe antes o ar de um palhaço triste. A espaços vêm crianças sentar-se ao seu colo para a fotografia, como se de uma nova espécie de Pai Natal se tratasse. Para essas ocasiões, tem uns dentes caninos postiços que emprestam mais realismo à personagem, mas o terror continua ausente.

Ou talvez esteja lá. Há uma melancolia resignada no olhar do vampiro, um cansaço de quem contemplou vezes demais o horror da vida, a fadiga e as dores e o preço da comida, e só espera agora o repouso do túmulo, que não é de facto repouso porque não é de facto nada. Repouso era o do outro conde, cuja vida não terminava quando se deitava no ataúde, mas apenas recobrava forças com que à noite saísse e assustasse a vizinhança. Não será assim com este, que um dia se estenderá no túmulo para jamais se levantar, e nem sequer saberá disso. O horror da vida é não existirem vampiros.

Num período desocupado, o conde levanta-se e vai buscar um cinzeiro. Segura o cigarro com as mãos enluvadas de negro. Sobre as luvas há um esqueleto pintado, ossos de fantasia a cobrirem os ossos verdadeiros, talvez ainda mais frágeis. Ao fim do dia irá para casa jantar, e sangrará de uma gengiva apodrecida, único sangue ainda presente no seu quotidiano. Ainda voltará outros dias, e depois tudo acabará. O relógio da torre prosseguirá impávido o seu pontual badalar, e continuaremos a não saber porquê.

Uma jovem de saia exígua fotografa a placa, e troca com a sua companheira algumas palavras sobre Vlad Dracul, a grande atração de Sighisoara. O conde tosse o resto do cigarro, e o seu catarro tem apenas a fadiga de décadas. Só as lendas duram seis séculos.

Transilvânia, 1 de Setembro de 2012

domingo, 22 de julho de 2012

Casa de Sombras

A porta, de madeira rachada e escurecida pelo tempo, parecia negrejar no fundo da viela que um candeeiro se esforçava em vão por iluminar, mas que lograva apenas projetar uma fantasmagoria de sombras nas paredes onde a humidade escorria desde tempos imemoriais. O vento sibilante gelava-me a alma e os ossos, e já me parecera ouvir passos, murmúrios e pios de mochos. Decidi entrar.

A casa era velha, muito velha. O sobrado, de tábuas corridas onde o desgaste do tempo abria frestas, tinha aquela solidez oca de tempos que já não são, como se não tivesse sido feito para suportar o volume prosaico de gente moderna. O inevitável papel de parede, de um padrão verde de ramagens, descascava em todo o lado, e a mobília era soturna, mesas pesadas e sérias, armários de patriarcal dignidade, e cadeiras empertigadas e altivas. Um velho louceiro guardava a porta da sala, arranhado e gasto já, veterano de antigas guerras que lograra manter uma dignidade tão fora de moda como os seus torcidos e tremidos. A casa parecia assombrada, e sobretudo mal-assombrada, pensei.

O corredor, opressivo e sombrio, habitado de sombras perversas, desembocava numa escada larga e escarpada, que subi com o coração pesado. Por certo que não era senão a minha imaginação que conjurava aquele ominoso bater de asas coriáceas, como se revoadas de morcegos se indignassem à minha passagem. Entre rangidos dos degraus gastos, atingi o patamar superior, e entrei no primeiro quarto que se me deparou. Tal como no resto da casa, o pó recobria a madeira seca dos móveis, o verdete das ferragens, e as manchas do grande espelho de toucador. Era um espelho imponente, que se pressentia ter refletido na sua época figuras que bastariam para contar uma história recheada de toiletes e vestidos de baile e casacas de ópera, mas que agora só refletia a imensidão quieta de uma cama em desuso, e um fantasma. Decidi que se tratava apenas do meu vulto, que ali não destoava, aquilino e pálido, corcovando um pouco. Já seduzido pela atmosfera enfeitiçada, continuei a explorar, e fui dar ao escritório.

Uma vasta escrivaninha suportava os velhos utensílios de escrita, a pena e o tinteiro e o mata-borrão, o selo e o lacre indispensáveis. Mas o tinteiro estava vazio, a pena não tinha aparo, e o lacre era um simples pedaço de plástico. A um canto, meio escondido, destoava um computador que era apenas velho, sem ser antigo.

Que desilusão! A escrivaninha era de contraplacado. Os imponentes móveis, vistos de perto, mostravam os tubos de alumínio que os enformavam, e que davam suporte às chapas de material barato, imitação de madeira feita em mau plástico. O espelho era feito numa matéria sintética, mesquinha, e as tábuas do soalho não passavam de linóleo. A casa era rasca, vil e falsa, e mesmo o pó que a cobria não caíra do alto dos tempos, mas da broca de um berbequim furando estuque em mau estado. As sombras não eram fantasmas – eram só falta de luz. Saí da casa, sabendo que saía de mim próprio, pois já não podia viver dentro de mim. O gótico da minha casa não era o decrépito dos tempos. A casa só estava decrépita porque não prestava, e nem tinha qualidade que justificasse fazer-lhe obras.

Estou sentado na viela, e o chão está húmido. Gostava de ter trazido comigo uma das cadeiras, mas não fui capaz. De resto, era provável que se partisse se a tentasse usar. Não há sombras de fantasmas, não há mistério ou ecos de romance. Há paredes nuas e escalavradas, e uma porta sem serventia. A penumbra desapareceu, e agora há só escuridão. E a chuva, que continua a cair.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Da manifesta insuficiência das palavras para dizer seja o que for.


O que é ridículo, se pensarmos bem nisso. Uma história escreve-se com palavras, e parece idiota que nos sirvamos das palavras apenas para dizer que as palavras não servem para nada. E daí, talvez sirvam pelo menos para isso…

A vela tremeluziu com algum embaraço, esforçou-se bravamente num derradeiro clarão, e extinguiu-se por fim num rasto de fumo e fracasso. O cavaleiro sem armadura soltou uma praga sonora, cujo teor exato se omite nestas linhas, mas que podemos adiantar tratar-se de uma expletiva cruamente escatológica. Em boa verdade, nada naquele passamento da vela justificava uma tão extemporânea evocação de fezes e latrina, o que não impediu que lhe soubesse bem soltar aquela praga. A vela não se destinava a iluminação, pois é sabido que os cavaleiros dos tempos modernos se alumiam com lâmpadas elétricas. Também não se tratava aqui de mezinha espiritual, círio prometido a divindades mortas ou aura convocadora de energias espirituais. A vela não servia realmente para nada, o seu fim nada veio terminar, nada além da cera que se consumira cedo de mais, tão rapidamente como a sua vida se consumira. Pensar nessa vida levou-o a repetir o palavrão, desta vez com mais sentimento.

Merda para essa vida, e merda para todas as vidas que pudesse ter em vez dessa. Merda para a armadura inventada, para as invenções em que se desarmara, para a sua estupidez de inventar cavalarias e dragões e princesas e tavernas ruidosas onde cavaleiros sem temor bebiam a vitória sobre os dragões, cuidando que as princesas os não deixariam de aguardar, apenas para depois as buscarem enquanto cuidavam que as tavernas jamais cerrariam as suas portas. Merda para todas as vidas e romances e datas festivas, como se uma data pudesse tornar real o acontecimento que rememorava, como se fosse lógico comemorar e rir, como se fosse real viver ou morrer. Merda para tudo isso, e também para a vela que se apagou tão cedo, sem quase deixar memória de ter brilhado um dia, fazendo em torno de si uma escuridão tão estúpida como a luz que antes brilhara. Parecia-lhe tão pouco dizer assim merda, como se desistisse de fazer sentido, ou como se tivesse deixado de acreditar na possibilidade desse sentido, de algum sentido, de qualquer coisa que não fosse merda. As palavras nada diziam, e contudo o que haveria a dizer?

O cavaleiro apagou todas as luzes em seu redor, mas não tentou voltar a acender a vela. No lusco-fusco dos raios de luar que se coavam pela vidraça empoeirada, arrumou a um canto as peças da armadura inútil. Assim empilhadas, faziam lembrar os restos de um velho frigorífico, daqueles que dizemos que já não se usam, mas que no fundo acreditamos que nunca se chegaram a usar. Estavam já enferrujadas, aqui e ali, mas isso não era nada de especial. Os pedaços da armadura ainda mal tinham começado a morrer.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Interlúdio Negro

Algumas noites são mais difíceis. É curioso, pensa-se que vai ficando mais fácil com o decorrer do tempo, e talvez até fique, não sei. As coisas vão encaixando, umas menos que outras, algumas só encaixam mesmo com muito boa vontade, mas lá se vão convencendo os dias a fazer o seu sentido, alguma espécie de sentido, ou qualquer coisa que pelo menos se pareça com uma espécie de sentido. E enquanto os dias vão estando ocupados nesse fútil diagrama de uma existência pífia, tudo corre pelo melhor. Algumas noites, no entanto, são mais difíceis.

É claro que foi má ideia cumprimentar o papa-formigas azul. Devia ter compreendido de imediato que algo estava errado quando o vi sentado sobre a minha secretária, de óculos encavalitados no nariz extravagante, tocando uma espécie de solo de xilofone sobre as cordas de um violino feito de pele humana. Ao fim de todo este tempo, tinha já a obrigação de saber que os papa-formigas nunca são azuis, e essa discrepância devia ter-me logo alertado. Talvez me tenha de facto alertado, não sei, talvez tenha sido eu que não prestei atenção à subtil anomalia, e que inconscientemente optei por achar aquilo tão natural como uma noite bem passada, tão normal como conseguir-se o que se deseja, tão corriqueiro como saber-se mesmo o que se deseja, e achar natural obtê-lo. Neste ponto, o papa-formigas interpretou um trecho particularmente difícil de uma ópera alemã, e eu deixei-me entusiasmar.

O papa-formigas está morto sobre a minha secretária, e acho que foi o meu entusiasmo que o matou. Está cada vez mais azul, mas agora já não me entusiasma. Ou talvez ainda entusiasme, mas é difícil de dizer, porque me falta o ar. A atmosfera ficou pesada de repente, e creio que se esqueceram de lhe juntar oxigénio, ou então fui eu que me esqueci de como se inspira. Creio que estou também um pouco azul, mas não faz mal. Há noites azuis, assim como há dias de sol, e tudo isso finda mais tarde ou mais cedo. O violino continua a tocar uma melopeia fantasmagórica, que me arrepia os pulmões, e a pele humana que o reveste começa a apresentar largas manchas. Sinceramente, não sei o que faça com ele. Podia enterra-lo ao lado do papa-formigas, mas não creio que se calasse.

E também pode ser que amanhã o violino se cale, e o papa-formigas volte a sorrir, e se esqueça de ser azul. Talvez as coisas normais e corriqueiras se lembrem de ser de facto normais e corriqueiras, e eu me torne também corriqueiro, e pareça um pouco normal. E o mundo vai parecer outra vez redondo, mas só pela manhã. Agora ainda é cedo para isso, o mundo ainda é escuridão, e parece-se muito com um dragão deformado, com asas de morcego cheias de rasgões e pele coriácea e reluzente, a escorrer uma baba da cor repugnante da noite. E algumas noites, de facto, são mais difíceis.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Balcão do Café.

Uma Super Bock, claro, e talvez, não sei, um daqueles folhados. O objectivo era a cerveja, mas são horas de jantar, e o estômago vazio agradece decerto o folhado acrescentado à encomenda. Por entre a bebida e a mastigação, reparo numa mosca que se passeia pelo tampo de vidro do contador, e que circum-navega os círculos de cerveja deixados pelo copo transbordado. Sopro-a para a convencer a voar, mas ela não parece disposta a tal, é bem possível que leve já um grãozinho na asa.

Outra cerveja, já sem o álibi alimentar, pois não me apetece comer mais folhados, e a mosca parece concordar comigo, quando esquiva as migalhas do pastel e submerge, de probóscide em riste, no lago ampliado da cerveja. Consumo a minha própria bebida enquanto ela mal fez mossa na sua, são estas as consequências de se pesar mais de uma centena de quilos, em vez de meros miligramas. Farto de cerveja, encomendo um brandy!

A mosca descobriu o brandy, e caminha agora para ele, com aquele passo hesitante que o álcool de uso impõe ao espírito virado para a reflexão. Parece lançar contas à sua vida, sem que a soma lhe agrade particularmente. Supomo-la a pensar no moscardo com quem saiu duas ou três vezes, e que impulsivamente expulsou da sua vida, quem sabe se terá sido sensata. Ele bem mostrara não ser digno de confiança, mas a sua companhia divertia-a, não teria sido talvez melhor mantê-la, e o que é que eu estava a pensar, que me perdi agora? Num passo arrastado, a mosca adentra o círculo de brandy, que começa a percorrer num circuito degustativo. Farto-me de a contemplar, e dedico-me à televisão, que transmite um jogo de futebol. Farto-me ainda mais disso, e volto à mosca, em atenção a quem peço outro brandy.

Agora sou eu que penso na vida, com todas as suas complexidades. Cada aspecto novo leva-me a beber mais um golo, e depressa a soma dos aspectos esgotou o cálice. O que sobrou está sobre o balcão, na forma de um círculo que a mosca pesadamente percorre. O meu espírito brinca ainda com a ideia de mais um cálice, mas verifico que exauri já os meus recursos, pelo que pago a conta e me preparo para sair.

Lanço ainda um último olhar à mosca, que percorre sempre a mancha de brandy, como que a lembrar-me ironicamente que até para ser um bêbado é preciso ter dinheiro. Isso, ou ser um artrópode.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Outono

Começo a convencer-me que é uma lei da natureza – eu e as estações do ano não nos damos bem. De quantos Dezembros cantei já os dias de sol brilhante e frio, a árctica emulação de um Verão primaveril, o despontar de promessas fora de tempo? E agora que o Verão se estabeleceu em toda a sua abrasadora canícula, que as praias estalam de corpos grelhando no estival braseiro, não é que dou por mim descendo uma rua de Outono, entre arvoredos doirados e fulvos, a que uma brisa fresca vai já desfolhando a chama e o ouro?

É uma jornada alegre e bem-disposta, assim empreendida entre amigos e amores, bem cercado dos favores e lealdades em que um coração se compraz. Os troncos que balizam a vereda que desce para o mar adoptam posturas quase bonacheironas, assim grossos e nodosos, exibindo com deleite as suas cabeleiras de fogo. Apoio-me ao ombro que me ladeia, mas escorrego, o ombro não está lá. Um choque, decerto, e um desequilíbrio, mas há sempre outro lado onde me posso apoiar. E assim a jornada prossegue, coxa decerto, mas sempre feliz. E as árvores soltam como sempre as suas folhas de Outono, e guardam as suas cabeleiras de chama.

Vem depois um dia, o dia inevitável, em que todo o apoio se desvanece. É chegado o tempo de compreender que ninguém desce comigo a rua do Outono, que só com dois ombros posso contar, e esses são os meus. E espanto-me então da minha arrogância, de ter pensado um dia que havia mais do que isso. O Verão é um tempo de camaradagem e amizade, mas todos descemos o Outono sozinhos.

Não faz mal, não é sequer grave. Exige um pouco de tempo, é certo, como qualquer realidade. Cedo compreendo que me cabe descer essa rua direito, sem me apoiar a nada ou ninguém. Muitas vezes cambaleei nessa avenida, onde ainda agora me desequilibrei ao estender a mão para o ombro que não estava lá. Mas já recuperei o equilíbrio, e não corro mais esse risco. Agora sei que estou só, não preciso de confiar em ninguém, nem de voltar a tropeçar.

Perdi uns metros nesta jornada, mas ganhei firmeza. Mentiram-me e recebi a mentira em face, mas ganhei sabedoria. Perdi falsos apoios, ganhando a certeza que o único apoio verdadeiro está em mim.

À minha frente estende-se a longa estrada de Outono, doirada e rubra como o fim de um Verão que ainda mal começou. Sei que a percorrerei até ao fim. Agora já não tenho dúvidas, nem preciso de perguntar a ninguém qual é o meu caminho.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O Ciber-Pateta

Nestes tempos já maduros do fenómeno informático, aqueles de nós que viram nascer e crescer estas tecnologias, e acompanharam as mudanças sociais que elas trouxeram, não podem deixar de lamentar com alguma nostalgia a quase extinção desse animal bruto e terno, o Ciber-Pateta. Se bem que incómodo e frequentemente irritante, o Ciber-Pateta emprestava à info-paisagem um encanto todo próprio, e que foi parte integrante desses tempos de mudança.

Quem é o Ciber-Pateta? A espécie sempre foi variada, há que admiti-lo, e nem todos os seus membros apresentavam os mesmos traços. Uma característica era todavia comum a todos – o impulso irresistível, frenético e incontrolável, de terminar a leitura de cada mail com um clique no botão de Forward. Por mais incrível, disparatado, ou completamente falso, o Ciber-Pateta partilhava. Com Forward. Para toda a lista de endereços. Toda, e com os endereços em aberto. Quando alguém mais informado lhe ensinava a usar o Bcc, ele agradecia, com Reply All, evidentemente. E depois não usava, mas voltava a agradecer!

De vez em quando, uma alma mais bem-intencionada, ou menos paciente, não se conseguia impedir de responder a um Forward mais descabelado. Com toda a diplomacia que conseguia reunir, lá lhe explicava que a história dos animais sem cabeça nem pés usados para fazer hambúrgueres não tinha de facto pés nem cabeça; que esses animais, mesmo que conseguissem existir sem cabeça, custariam certamente muito mais que as tradicionais vacas; e que, de resto, tudo aquilo não tinha ponta por onde se lhe pegasse.

A resposta não se fazia geralmente esperar, e era invariavelmente um enérgico “Mas tu não julgas que eu acredito mesmo naquilo, ou achas que eu sou parvo?”. A alma bem-intencionada abstinha-se então de produzir uma resposta à última pergunta, com base nas provas dadas, e optava antes por acenar a bandeira da paz. O Ciber-Pateta perdoava e esquecia, porque no fundo o Ciber-Pateta sempre foi um animal cordato, e não se falava mais nisso. No outro dia, mandava-nos um Forward afirmando que a mais recente versão do Windows estava cheia de mensagens subliminares com que Bill Gates tencionava dominar o mundo, estabelecendo uma frente de ataque tripartida com base na América do Norte, na Arábia Saudita, e na Póvoa de Santo Adrião. A alma bem-intencionada tinha entretanto aprendido a sua lição, e já não se metia a responder.

Uma característica bem reveladora da modéstia da espécie era a sua tendência para se declararem inábeis em matéria de informática. A prolixidade dos seus mails facilmente desmente tal asserção. Note-se que a capacidade de programar em Assembler ou VBA não é uma “habilidade” – é uma profissão, tal como ser mecânico de automóveis ou piloto de aviões. Ninguém se considera menos hábil para embarcar num avião por não o saber pilotar, nem se considera um condutor incapaz por não conseguir reparar um motor. Como utilizador, o Ciber-Pateta sempre foi habilíssimo. Só para o que queria, é claro.

O que aconteceu então a esse simpático ruminante? Bem, aconteceu-lhe a blogosfera. E depois aconteceram-lhe as redes sociais. E com essas alterações do modelo de comunicação global, o Forward caiu em desuso. Isto não é brincadeira, o Forward é o habitat natural desta espécie, é a impunidade e o álibi para comunicar seja o que for sem assumir responsabilidade por nada. Se alguma razão tiver de ser evocada para fazer aquele Forward, está sempre disponível a razão óbvia – alguém o fez antes, ou ele não o teria recebido.

Escrever um artigo num blogue, ou publicar um link num FaceBook, é já um acto de iniciativa, e traz implícito um envolvimento de quem o faz com a veracidade do tema abordado. O autor pode estar enganado, e todo aquele conteúdo ser falso, mas é preciso que esteja pelo menos plausivelmente enganado. Publicar um link e depois afirmar que não se acredita em nada do que se publicou é assumir-se publicamente como um imbecil. E isso não é nada próprio do Ciber-Pateta, que – para começar – nunca assumiu coisa nenhuma. E sempre foi isso que lhe deu o encanto.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Inesperadamente…

Ontem, inesperadamente, fui sair à noite. Foi assim: estava sozinho em casa, tentando fingir que queria estar sozinho, que a solidão que inesperadamente ocorrera era bem-vinda, quando o telefone tocou sem que nada o fizesse esperar. Anuí ao convite inesperado, e estendi-o a outra amiga que o não esperava, mas que sem que eu esperasse aceitou. E inesperadamente se fez uma noite tal como as do passado, com copos de hoje e amigos de sempre. Não o esperava, confesso.

As horas passaram, os copos passaram, a lua quase cheia passou pelo céu todo, e pareceu em todo esse tempo que tempo nenhum tinha passado, que trinta anos das nossas vidas não haviam rolado, pesados e grossos, fazendo de nós outros do que o que fôramos. Por toda uma noite, vivemos o passado sem perder o presente; ou justamente o contrário, não sei bem.

Foi bom saber que ainda existíamos todos, que ainda existíamos uns para os outros, que muito do que jurámos décadas atrás manter vivo tinha de facto sobrevivido. Foi bom, bom e inesperado, descobrir que ainda éramos nós.

Votei para casa com a noite já velha, e deitei-me com o sol a brilhar-me pelo quarto todo, mas acordei novo, inesperadamente novo. É bom saber que ainda há coisas que não mudam, amizades com que podemos continuar a contar, laços com que contaremos sempre. Assim mesmo, quando menos esperarmos!

domingo, 5 de junho de 2011

Rock in Rio

Entre a enorme variedade de emails que recebo, provenientes de desconhecidos caridosos que de alguma forma misteriosa se inteiraram de que sou gordo, careca, tenho o pénis pequeno e sofro de impotência e ejaculação prematura ao mesmo tempo, um grupo há que me tem sempre merecido o maior carinho. Refiro-me a essa heróica equipa de publicitários que, chegando certa época do ano, não poupa um único email num esforço louvável de me manter a par, a todo o momento, daquilo que se passa, vai passar ou passou no Rock in Rio. Tal atitude é tanto mais notável quanto mais é conhecida a minha completa ignorância no que a esse fenómeno respeita. Mas lá vou lendo, compenetradamente, pois não está no meu feitio fazer desfeitas. Foi assim que me inteirei deste facto espantoso – o Rock in Rio deste ano é no ano que vem. Ou seja, está-se a preparar o Rock in Rio Lisboa 2012 – e a versão 2011 será no Brasil. Isto deu-me que pensar.

E pensar deu-me uma pequena dor de cabeça, pelo que desisti antes que aumentasse. Não sei de facto quando é o Rock in Rio neste ou naquele sítio, mas não sou o género de pessoa que se deixa derrotar pela ignorância. É sempre possível pesquisar, documentar, informar-me, ou, muito mais simplesmente, inventar tudo de uma ponta a outra. E eu tenho um fraco por soluções simples, é coisa que nunca neguei. Aqui vai, portanto, a história completa.

Desde o início me tem parecido que o Rock in Rio, com aquele nome, não seria nativo da cidade de Lisboa. Confirma-se agora a razão que me assistia – o Rock in Rio tem as suas origens no Porto! O evento, nesses tempos primordiais, tinha muito pouco a ver com música, e consistia essencialmente em grupos de portuenses que se juntavam para apedrejar o presidente da câmara. Um dia o Rui Rio fartou-se daquela chuva de calhaus que periodicamente lhe caía em cima, e disse aos participantes para onde haviam de ir: para Lisboa, bonita cidade, que tinha entre outras a larga vantagem de ele não estar lá. E já agora, acrescentou ainda, porque é que não tocavam qualquer coisinha, em vez daquele costume estúpido de atirarem pedras? O conselho não colheu inteiramente, e ainda hoje se vê por lá muita gente pedrada – no palco e fora dele. No primeiro caso, celebrizou-se recentemente uma artista estrangeira, Amélia Adega, que tem ainda assim uma bonita voz.

Mas este ano o Rock in Rio não é em Lisboa. Vão fazê-lo na Barra da Tijuca, e quem somos nós para nos opor? A Amélia não vai estar lá, e parece que também não conseguiram incluir o Prince. Existia, ao que apurámos, interesse de parte a parte, mas a participação foi inviabilizada por razões logísticas. Com efeito, começa a ser muito difícil encaixar num folheto de programa de dimensões normais “o artista anteriormente conhecido como o artista anteriormente conhecido como Prince”. Estarão lá, contudo, os Guns N’Roses, ou pelo menos parte deles. Fonte próxima da banda adiantou já que consideram a possibilidade de enviar apenas os Roses, baseado em que é supérfluo e um pouco ridículo enviar Guns para o Rio de Janeiro.

Em suma, tudo leva a esperar um bom espectáculo. Só acho que seria agradável e de bom tom – e a sugestão ainda vai a tempo de ser implementada – que chamassem ao evento “Rock in Lisbon”.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Desejo

Quero um apartamento no Algarve
A duzentos metros da praia.
Com varanda, barbecue e cadeirinhas,
E um mini-mercado ao lado.

Quero sair pela estrada de cimento
(aquela estrada diferente, de quem está de férias)
Comprar o jornal logo de manhã
E apreçar mexilhão, antes do almoço.

Quero trocar o meu apartamento
Por uma vivenda, piscina a repartir,
Num condomínio fechado e vazio,
Vazio de ideia, fechado de gente.

Quero boiar como uma baleia,
No mar de todos, que a todos consente
O mau gosto ocasional de serem baleias,
Ou o mais permanente, de não serem nada!

Quero muito, quero até o indisponível,
E por último até já acho que não quero nada.