Nestes tempos já maduros do fenómeno informático, aqueles de nós que viram nascer e crescer estas tecnologias, e acompanharam as mudanças sociais que elas trouxeram, não podem deixar de lamentar com alguma nostalgia a quase extinção desse animal bruto e terno, o Ciber-Pateta. Se bem que incómodo e frequentemente irritante, o Ciber-Pateta emprestava à info-paisagem um encanto todo próprio, e que foi parte integrante desses tempos de mudança.
Quem é o Ciber-Pateta? A espécie sempre foi variada, há que admiti-lo, e nem todos os seus membros apresentavam os mesmos traços. Uma característica era todavia comum a todos – o impulso irresistível, frenético e incontrolável, de terminar a leitura de cada mail com um clique no botão de Forward. Por mais incrível, disparatado, ou completamente falso, o Ciber-Pateta partilhava. Com Forward. Para toda a lista de endereços. Toda, e com os endereços em aberto. Quando alguém mais informado lhe ensinava a usar o Bcc, ele agradecia, com Reply All, evidentemente. E depois não usava, mas voltava a agradecer!
De vez em quando, uma alma mais bem-intencionada, ou menos paciente, não se conseguia impedir de responder a um Forward mais descabelado. Com toda a diplomacia que conseguia reunir, lá lhe explicava que a história dos animais sem cabeça nem pés usados para fazer hambúrgueres não tinha de facto pés nem cabeça; que esses animais, mesmo que conseguissem existir sem cabeça, custariam certamente muito mais que as tradicionais vacas; e que, de resto, tudo aquilo não tinha ponta por onde se lhe pegasse.
A resposta não se fazia geralmente esperar, e era invariavelmente um enérgico “Mas tu não julgas que eu acredito mesmo naquilo, ou achas que eu sou parvo?”. A alma bem-intencionada abstinha-se então de produzir uma resposta à última pergunta, com base nas provas dadas, e optava antes por acenar a bandeira da paz. O Ciber-Pateta perdoava e esquecia, porque no fundo o Ciber-Pateta sempre foi um animal cordato, e não se falava mais nisso. No outro dia, mandava-nos um Forward afirmando que a mais recente versão do Windows estava cheia de mensagens subliminares com que Bill Gates tencionava dominar o mundo, estabelecendo uma frente de ataque tripartida com base na América do Norte, na Arábia Saudita, e na Póvoa de Santo Adrião. A alma bem-intencionada tinha entretanto aprendido a sua lição, e já não se metia a responder.
Uma característica bem reveladora da modéstia da espécie era a sua tendência para se declararem inábeis em matéria de informática. A prolixidade dos seus mails facilmente desmente tal asserção. Note-se que a capacidade de programar em Assembler ou VBA não é uma “habilidade” – é uma profissão, tal como ser mecânico de automóveis ou piloto de aviões. Ninguém se considera menos hábil para embarcar num avião por não o saber pilotar, nem se considera um condutor incapaz por não conseguir reparar um motor. Como utilizador, o Ciber-Pateta sempre foi habilíssimo. Só para o que queria, é claro.
O que aconteceu então a esse simpático ruminante? Bem, aconteceu-lhe a blogosfera. E depois aconteceram-lhe as redes sociais. E com essas alterações do modelo de comunicação global, o Forward caiu em desuso. Isto não é brincadeira, o Forward é o habitat natural desta espécie, é a impunidade e o álibi para comunicar seja o que for sem assumir responsabilidade por nada. Se alguma razão tiver de ser evocada para fazer aquele Forward, está sempre disponível a razão óbvia – alguém o fez antes, ou ele não o teria recebido.
Escrever um artigo num blogue, ou publicar um link num FaceBook, é já um acto de iniciativa, e traz implícito um envolvimento de quem o faz com a veracidade do tema abordado. O autor pode estar enganado, e todo aquele conteúdo ser falso, mas é preciso que esteja pelo menos plausivelmente enganado. Publicar um link e depois afirmar que não se acredita em nada do que se publicou é assumir-se publicamente como um imbecil. E isso não é nada próprio do Ciber-Pateta, que – para começar – nunca assumiu coisa nenhuma. E sempre foi isso que lhe deu o encanto.
Há que enterrar os nossos palhaços, se queremos manter um ar sério... até os elefantes, antes de morrer, têm o cuidado de o fazer em sítio adequado...
quarta-feira, 15 de junho de 2011
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Inesperadamente…
Ontem, inesperadamente, fui sair à noite. Foi assim: estava sozinho em casa, tentando fingir que queria estar sozinho, que a solidão que inesperadamente ocorrera era bem-vinda, quando o telefone tocou sem que nada o fizesse esperar. Anuí ao convite inesperado, e estendi-o a outra amiga que o não esperava, mas que sem que eu esperasse aceitou. E inesperadamente se fez uma noite tal como as do passado, com copos de hoje e amigos de sempre. Não o esperava, confesso.
As horas passaram, os copos passaram, a lua quase cheia passou pelo céu todo, e pareceu em todo esse tempo que tempo nenhum tinha passado, que trinta anos das nossas vidas não haviam rolado, pesados e grossos, fazendo de nós outros do que o que fôramos. Por toda uma noite, vivemos o passado sem perder o presente; ou justamente o contrário, não sei bem.
Foi bom saber que ainda existíamos todos, que ainda existíamos uns para os outros, que muito do que jurámos décadas atrás manter vivo tinha de facto sobrevivido. Foi bom, bom e inesperado, descobrir que ainda éramos nós.
Votei para casa com a noite já velha, e deitei-me com o sol a brilhar-me pelo quarto todo, mas acordei novo, inesperadamente novo. É bom saber que ainda há coisas que não mudam, amizades com que podemos continuar a contar, laços com que contaremos sempre. Assim mesmo, quando menos esperarmos!
As horas passaram, os copos passaram, a lua quase cheia passou pelo céu todo, e pareceu em todo esse tempo que tempo nenhum tinha passado, que trinta anos das nossas vidas não haviam rolado, pesados e grossos, fazendo de nós outros do que o que fôramos. Por toda uma noite, vivemos o passado sem perder o presente; ou justamente o contrário, não sei bem.
Foi bom saber que ainda existíamos todos, que ainda existíamos uns para os outros, que muito do que jurámos décadas atrás manter vivo tinha de facto sobrevivido. Foi bom, bom e inesperado, descobrir que ainda éramos nós.
Votei para casa com a noite já velha, e deitei-me com o sol a brilhar-me pelo quarto todo, mas acordei novo, inesperadamente novo. É bom saber que ainda há coisas que não mudam, amizades com que podemos continuar a contar, laços com que contaremos sempre. Assim mesmo, quando menos esperarmos!
domingo, 5 de junho de 2011
Rock in Rio
Entre a enorme variedade de emails que recebo, provenientes de desconhecidos caridosos que de alguma forma misteriosa se inteiraram de que sou gordo, careca, tenho o pénis pequeno e sofro de impotência e ejaculação prematura ao mesmo tempo, um grupo há que me tem sempre merecido o maior carinho. Refiro-me a essa heróica equipa de publicitários que, chegando certa época do ano, não poupa um único email num esforço louvável de me manter a par, a todo o momento, daquilo que se passa, vai passar ou passou no Rock in Rio. Tal atitude é tanto mais notável quanto mais é conhecida a minha completa ignorância no que a esse fenómeno respeita. Mas lá vou lendo, compenetradamente, pois não está no meu feitio fazer desfeitas. Foi assim que me inteirei deste facto espantoso – o Rock in Rio deste ano é no ano que vem. Ou seja, está-se a preparar o Rock in Rio Lisboa 2012 – e a versão 2011 será no Brasil. Isto deu-me que pensar.
E pensar deu-me uma pequena dor de cabeça, pelo que desisti antes que aumentasse. Não sei de facto quando é o Rock in Rio neste ou naquele sítio, mas não sou o género de pessoa que se deixa derrotar pela ignorância. É sempre possível pesquisar, documentar, informar-me, ou, muito mais simplesmente, inventar tudo de uma ponta a outra. E eu tenho um fraco por soluções simples, é coisa que nunca neguei. Aqui vai, portanto, a história completa.
Desde o início me tem parecido que o Rock in Rio, com aquele nome, não seria nativo da cidade de Lisboa. Confirma-se agora a razão que me assistia – o Rock in Rio tem as suas origens no Porto! O evento, nesses tempos primordiais, tinha muito pouco a ver com música, e consistia essencialmente em grupos de portuenses que se juntavam para apedrejar o presidente da câmara. Um dia o Rui Rio fartou-se daquela chuva de calhaus que periodicamente lhe caía em cima, e disse aos participantes para onde haviam de ir: para Lisboa, bonita cidade, que tinha entre outras a larga vantagem de ele não estar lá. E já agora, acrescentou ainda, porque é que não tocavam qualquer coisinha, em vez daquele costume estúpido de atirarem pedras? O conselho não colheu inteiramente, e ainda hoje se vê por lá muita gente pedrada – no palco e fora dele. No primeiro caso, celebrizou-se recentemente uma artista estrangeira, Amélia Adega, que tem ainda assim uma bonita voz.
Mas este ano o Rock in Rio não é em Lisboa. Vão fazê-lo na Barra da Tijuca, e quem somos nós para nos opor? A Amélia não vai estar lá, e parece que também não conseguiram incluir o Prince. Existia, ao que apurámos, interesse de parte a parte, mas a participação foi inviabilizada por razões logísticas. Com efeito, começa a ser muito difícil encaixar num folheto de programa de dimensões normais “o artista anteriormente conhecido como o artista anteriormente conhecido como Prince”. Estarão lá, contudo, os Guns N’Roses, ou pelo menos parte deles. Fonte próxima da banda adiantou já que consideram a possibilidade de enviar apenas os Roses, baseado em que é supérfluo e um pouco ridículo enviar Guns para o Rio de Janeiro.
Em suma, tudo leva a esperar um bom espectáculo. Só acho que seria agradável e de bom tom – e a sugestão ainda vai a tempo de ser implementada – que chamassem ao evento “Rock in Lisbon”.
E pensar deu-me uma pequena dor de cabeça, pelo que desisti antes que aumentasse. Não sei de facto quando é o Rock in Rio neste ou naquele sítio, mas não sou o género de pessoa que se deixa derrotar pela ignorância. É sempre possível pesquisar, documentar, informar-me, ou, muito mais simplesmente, inventar tudo de uma ponta a outra. E eu tenho um fraco por soluções simples, é coisa que nunca neguei. Aqui vai, portanto, a história completa.
Desde o início me tem parecido que o Rock in Rio, com aquele nome, não seria nativo da cidade de Lisboa. Confirma-se agora a razão que me assistia – o Rock in Rio tem as suas origens no Porto! O evento, nesses tempos primordiais, tinha muito pouco a ver com música, e consistia essencialmente em grupos de portuenses que se juntavam para apedrejar o presidente da câmara. Um dia o Rui Rio fartou-se daquela chuva de calhaus que periodicamente lhe caía em cima, e disse aos participantes para onde haviam de ir: para Lisboa, bonita cidade, que tinha entre outras a larga vantagem de ele não estar lá. E já agora, acrescentou ainda, porque é que não tocavam qualquer coisinha, em vez daquele costume estúpido de atirarem pedras? O conselho não colheu inteiramente, e ainda hoje se vê por lá muita gente pedrada – no palco e fora dele. No primeiro caso, celebrizou-se recentemente uma artista estrangeira, Amélia Adega, que tem ainda assim uma bonita voz.
Mas este ano o Rock in Rio não é em Lisboa. Vão fazê-lo na Barra da Tijuca, e quem somos nós para nos opor? A Amélia não vai estar lá, e parece que também não conseguiram incluir o Prince. Existia, ao que apurámos, interesse de parte a parte, mas a participação foi inviabilizada por razões logísticas. Com efeito, começa a ser muito difícil encaixar num folheto de programa de dimensões normais “o artista anteriormente conhecido como o artista anteriormente conhecido como Prince”. Estarão lá, contudo, os Guns N’Roses, ou pelo menos parte deles. Fonte próxima da banda adiantou já que consideram a possibilidade de enviar apenas os Roses, baseado em que é supérfluo e um pouco ridículo enviar Guns para o Rio de Janeiro.
Em suma, tudo leva a esperar um bom espectáculo. Só acho que seria agradável e de bom tom – e a sugestão ainda vai a tempo de ser implementada – que chamassem ao evento “Rock in Lisbon”.
segunda-feira, 14 de março de 2011
Desejo
Quero um apartamento no Algarve
A duzentos metros da praia.
Com varanda, barbecue e cadeirinhas,
E um mini-mercado ao lado.
Quero sair pela estrada de cimento
(aquela estrada diferente, de quem está de férias)
Comprar o jornal logo de manhã
E apreçar mexilhão, antes do almoço.
Quero trocar o meu apartamento
Por uma vivenda, piscina a repartir,
Num condomínio fechado e vazio,
Vazio de ideia, fechado de gente.
Quero boiar como uma baleia,
No mar de todos, que a todos consente
O mau gosto ocasional de serem baleias,
Ou o mais permanente, de não serem nada!
Quero muito, quero até o indisponível,
E por último até já acho que não quero nada.
A duzentos metros da praia.
Com varanda, barbecue e cadeirinhas,
E um mini-mercado ao lado.
Quero sair pela estrada de cimento
(aquela estrada diferente, de quem está de férias)
Comprar o jornal logo de manhã
E apreçar mexilhão, antes do almoço.
Quero trocar o meu apartamento
Por uma vivenda, piscina a repartir,
Num condomínio fechado e vazio,
Vazio de ideia, fechado de gente.
Quero boiar como uma baleia,
No mar de todos, que a todos consente
O mau gosto ocasional de serem baleias,
Ou o mais permanente, de não serem nada!
Quero muito, quero até o indisponível,
E por último até já acho que não quero nada.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Areal
Um deserto de areia é duro de atravessar,
Vendo cada passo afundar nessa areia,
Que abrasiva nos abrasa.
Mas um deserto de mármore,
Limpo, asséptico e desempoeirado,
Pode ser maior tormento.
O tormento daquele dever ser
Que impiedoso esmaga o que é!
Uma racha no mármore que se enfeita,
Na ânsia de obliterar a areia que por baixo referve,
É bem mais intransponível que uma parede de areia.
E eu, que alcancei o mais alto cume
Da montanha secreta do deserto,
vi-me por fim agraciado em estátuas de mármore…
Todas recusei! Quero apenas, se querer ainda me resta,
A tua vida, o teu ser, a tua areia.
Vês-me alto demais! Não, ainda que tente,
Não sei fazer castelos em mármore!
Vendo cada passo afundar nessa areia,
Que abrasiva nos abrasa.
Mas um deserto de mármore,
Limpo, asséptico e desempoeirado,
Pode ser maior tormento.
O tormento daquele dever ser
Que impiedoso esmaga o que é!
Uma racha no mármore que se enfeita,
Na ânsia de obliterar a areia que por baixo referve,
É bem mais intransponível que uma parede de areia.
E eu, que alcancei o mais alto cume
Da montanha secreta do deserto,
vi-me por fim agraciado em estátuas de mármore…
Todas recusei! Quero apenas, se querer ainda me resta,
A tua vida, o teu ser, a tua areia.
Vês-me alto demais! Não, ainda que tente,
Não sei fazer castelos em mármore!
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Sísifo
Sísifo empurrou a rocha, que como sempre rolou até ao sopé do monte, onde se deteve. Agora era sempre a subir, ombros e mãos metidos à tarefa árdua, todo um empurra daqui, não deixes cair dali, mais um metro vencido à escarpa, menos um metro que fica a faltar até ao topo. O caminho é familiar mas nem por isso menos traiçoeiro, e a rocha parece sempre encontrar formas novas de se fazer mais pesada, e renovada malícia no esgueirar-se das mãos que a pretendem suster com firmeza. Mas lá vai subindo, aos poucos e poucos, e aqui temos outro metro superado.
Não tem planos intermédios o declive, mas sempre se encontra aqui e além uma aresta mais saída, precário apoio do penedo que permite a Sísifo algum descanso dos músculos abusados, e uma mão livre com que enxugue o suor da testa, enquanto inspira fundo o fôlego com que há-de arrancar a próxima etapa. Metro após metro, quando não sejam meros centímetros, que sendo progresso tudo vale, mas etapa a etapa, vai-se aproximando o cume.
São sempre os piores, aqueles metros derradeiros em que a escarpa mais semelha uma parede a pique, quase sem suporte para a rocha que assenta agora quase por inteiro nos seus ombros. Mas os músculos retesam-se, a vontade endurece, e a montanha é por fim vencida. A rocha equilibra-se triunfante no topo, para logo rolar livremente pela vertente oposta. Sísifo omite a custo uma palavra menos digna, e segue-a até à planície onde por fim a rocha se põe em descanso.
Sem desanimar, volta a empurrar a rocha para junto da montanha. Já prestes a empreender nova subida, detém-no a voz estridente que se faz ouvir de longe: “Sissi, pára lá de brincar com essa pedra e anda lavar-te, que o almoço está pronto!”. Há que acorrer ao chamado, e a rocha lá fica, rochedo de Sísifo que não se aparta do chão. Por enquanto, que haverá de ter fim o almoço, e novas tentativas se seguirão logo à tarde.
Não tem planos intermédios o declive, mas sempre se encontra aqui e além uma aresta mais saída, precário apoio do penedo que permite a Sísifo algum descanso dos músculos abusados, e uma mão livre com que enxugue o suor da testa, enquanto inspira fundo o fôlego com que há-de arrancar a próxima etapa. Metro após metro, quando não sejam meros centímetros, que sendo progresso tudo vale, mas etapa a etapa, vai-se aproximando o cume.
São sempre os piores, aqueles metros derradeiros em que a escarpa mais semelha uma parede a pique, quase sem suporte para a rocha que assenta agora quase por inteiro nos seus ombros. Mas os músculos retesam-se, a vontade endurece, e a montanha é por fim vencida. A rocha equilibra-se triunfante no topo, para logo rolar livremente pela vertente oposta. Sísifo omite a custo uma palavra menos digna, e segue-a até à planície onde por fim a rocha se põe em descanso.
Sem desanimar, volta a empurrar a rocha para junto da montanha. Já prestes a empreender nova subida, detém-no a voz estridente que se faz ouvir de longe: “Sissi, pára lá de brincar com essa pedra e anda lavar-te, que o almoço está pronto!”. Há que acorrer ao chamado, e a rocha lá fica, rochedo de Sísifo que não se aparta do chão. Por enquanto, que haverá de ter fim o almoço, e novas tentativas se seguirão logo à tarde.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Tolerâncias de Ponto: carta aberta ao Primeiro-Ministro.
Exmo. Sr. Primeiro-Ministro,
Esperando que esta o encontre de boa saúde, e na muito prezada companhia de todos os seus, tem a presente missiva a intenção de respeitosamente trazer ao conhecimento de Vexa. que, em data a combinar durante as próximas semanas, tenciono soltar um flato.
Não se receia aqui um evento de bufa maior, e é de crer que no todo não se venha a ultrapassar o simples traque. No entanto, considerando que é política do governo que Vexa. superiormente dirige conceder tolerância de ponto à função pública de cada vez que alguém dá um peido, gostaria de combinar previamente com o competente gabinete a melhor data para o evento, por forma a minimizar os transtornos que o mesmo possa causar ao público em geral.
Sendo o peido uma ocupação mais disruptiva da ordem pública do que qualquer cimeira da NATO, e contando ao mesmo tempo com muito mais adeptos do que Sua Santidade o Papa Bento XVI, seria talvez boa ideia considerar-se desde já uma tolerância alargada, que ao próprio dia da função somasse a tarde da véspera e a manhã do dia seguinte, salvaguardando assim a justa proporção das coisas.
Não despiciendo é ainda o facto de não ser o peido uma função exclusiva deste ou daquele cidadão ou momento, antes se tratando de um episódio que tende a ocorrer com alguma frequência. A meu ver, esta questão só pode ser endereçada de uma forma justa pela via de uma tolerância de ponto em regime de continuidade, que se prolongará até que termine a flatulência das nossas classes dirigentes. Talvez então os políticos finalmente esvaziados se decidam a produzir mais do que ar quente, e fazer por fim alguma coisa desta merda.
Grato e obrigado, pede deferimento o cidadão,
Nuno Baptista Coelho.
Esperando que esta o encontre de boa saúde, e na muito prezada companhia de todos os seus, tem a presente missiva a intenção de respeitosamente trazer ao conhecimento de Vexa. que, em data a combinar durante as próximas semanas, tenciono soltar um flato.
Não se receia aqui um evento de bufa maior, e é de crer que no todo não se venha a ultrapassar o simples traque. No entanto, considerando que é política do governo que Vexa. superiormente dirige conceder tolerância de ponto à função pública de cada vez que alguém dá um peido, gostaria de combinar previamente com o competente gabinete a melhor data para o evento, por forma a minimizar os transtornos que o mesmo possa causar ao público em geral.
Sendo o peido uma ocupação mais disruptiva da ordem pública do que qualquer cimeira da NATO, e contando ao mesmo tempo com muito mais adeptos do que Sua Santidade o Papa Bento XVI, seria talvez boa ideia considerar-se desde já uma tolerância alargada, que ao próprio dia da função somasse a tarde da véspera e a manhã do dia seguinte, salvaguardando assim a justa proporção das coisas.
Não despiciendo é ainda o facto de não ser o peido uma função exclusiva deste ou daquele cidadão ou momento, antes se tratando de um episódio que tende a ocorrer com alguma frequência. A meu ver, esta questão só pode ser endereçada de uma forma justa pela via de uma tolerância de ponto em regime de continuidade, que se prolongará até que termine a flatulência das nossas classes dirigentes. Talvez então os políticos finalmente esvaziados se decidam a produzir mais do que ar quente, e fazer por fim alguma coisa desta merda.
Grato e obrigado, pede deferimento o cidadão,
Nuno Baptista Coelho.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Lord of the Wrongs.
Já não acredito em nada. Fui acreditando em menos coisas a cada dia, e hoje não acredito mesmo em nada. É uma chatice não acreditar em nada, fica-se logo sem grande coisa para dizer, até porque não há grande coisa depois do nada. Queria contar uma história, acho que vou mesmo contá-la, mas honestamente não sei se acredito nela. E, no entanto...
Esgueirando-se por entre jornas de um Outono molhado de Inverno, deu-se por artes de fadas e magia um dia radioso de sol e alegria, um dia de fresco Verão, leve e prazenteiro. Por todo esse improvável dia perpassava uma felicidade e leveza como só se encontra em terras de legenda, nas mágicas terras dos elfos e hobbits. E deu-se justamente que um hobbit, ou pelo menos quase um hobbit, uma criatura tão insignificante como um hobbit, mas com um penteado mais decente, adentrou as fronteiras do reino vizinho, terras de Lisboa e Japão, nações estas quase irmãs.
Tal como o seu congénere de uma saga semelhante, também este buscava um vulcão onde derreter o seu anel, aquele anel de poder que forças diabólicas haviam em longínquos tempos forjado. O vulcão não se fez rogado, e nele o hobbit se perdeu ganhando-se a si próprio. Por longos momentos (quem saberá dizer quantos, senão quão poucos), se foram aqueles dois seres de quimera e fantasia ardendo um no outro, a fulgurante chama velada em propício desfiladeiro. Foi a alegria das chamas rompida pelas inesperadas fauces de um monstro, tenebrosa criatura que do nada surdia para os apavorar. O Vulcão gelou por momentos, chegou o hobbit a cambalear desamparado, mas um no outro se recompuseram, e à avantesma opuseram fero combate, do qual saiu malferida a insalubre criatura. E assim se apartaram os feéricos amantes, o vulcão para o seu ígneo leito, o hobbit para as suas florestas enfeitiçadas.
Apenas não estavam lá, essas florestas. Em vez dos seus verdejantes esgalhos e ramagens, viu-se o hobbit projectado em árido deserto, como pela mão de malévolo ciclone. E ainda lá anda, a criatura dos bosques e florestas, arquejando na privação de florestas e bosques. Valha-nos pelo menos que aprendeu a sua lição, e não acredita mais em coisa nenhuma. Descreu de ramagens e pássaros, de sóis radiosos brilhando em riachos cristalinos, de luas túrgidas revendo-se por noites claras em lagoas profundas e radiosas, onde inspiradas rãs fazem concerto com grilos e cigarras. Em nada disto o hobbit acredita já, em nada senão no deserto sem fim, a sua sina que negros fados teceram, e sobretudo no seu vulcão, o vulcão que é a sua outra metade, que nunca deixará de ser o seu outro eu, a sua vida e razão de ser. E quem saberá dizer, nestes confusos meandros de fantasia e ilusão, se não será mais feliz assim!
Esgueirando-se por entre jornas de um Outono molhado de Inverno, deu-se por artes de fadas e magia um dia radioso de sol e alegria, um dia de fresco Verão, leve e prazenteiro. Por todo esse improvável dia perpassava uma felicidade e leveza como só se encontra em terras de legenda, nas mágicas terras dos elfos e hobbits. E deu-se justamente que um hobbit, ou pelo menos quase um hobbit, uma criatura tão insignificante como um hobbit, mas com um penteado mais decente, adentrou as fronteiras do reino vizinho, terras de Lisboa e Japão, nações estas quase irmãs.
Tal como o seu congénere de uma saga semelhante, também este buscava um vulcão onde derreter o seu anel, aquele anel de poder que forças diabólicas haviam em longínquos tempos forjado. O vulcão não se fez rogado, e nele o hobbit se perdeu ganhando-se a si próprio. Por longos momentos (quem saberá dizer quantos, senão quão poucos), se foram aqueles dois seres de quimera e fantasia ardendo um no outro, a fulgurante chama velada em propício desfiladeiro. Foi a alegria das chamas rompida pelas inesperadas fauces de um monstro, tenebrosa criatura que do nada surdia para os apavorar. O Vulcão gelou por momentos, chegou o hobbit a cambalear desamparado, mas um no outro se recompuseram, e à avantesma opuseram fero combate, do qual saiu malferida a insalubre criatura. E assim se apartaram os feéricos amantes, o vulcão para o seu ígneo leito, o hobbit para as suas florestas enfeitiçadas.
Apenas não estavam lá, essas florestas. Em vez dos seus verdejantes esgalhos e ramagens, viu-se o hobbit projectado em árido deserto, como pela mão de malévolo ciclone. E ainda lá anda, a criatura dos bosques e florestas, arquejando na privação de florestas e bosques. Valha-nos pelo menos que aprendeu a sua lição, e não acredita mais em coisa nenhuma. Descreu de ramagens e pássaros, de sóis radiosos brilhando em riachos cristalinos, de luas túrgidas revendo-se por noites claras em lagoas profundas e radiosas, onde inspiradas rãs fazem concerto com grilos e cigarras. Em nada disto o hobbit acredita já, em nada senão no deserto sem fim, a sua sina que negros fados teceram, e sobretudo no seu vulcão, o vulcão que é a sua outra metade, que nunca deixará de ser o seu outro eu, a sua vida e razão de ser. E quem saberá dizer, nestes confusos meandros de fantasia e ilusão, se não será mais feliz assim!
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Alerta!
Às armas, todos em chusma e sem temor nem quebranto, que a hora é de heroísmos. Basta de indiferenças moles, chega de prudência acinzentada, é findo o tempo do decoro sem cor e do bom-tom que não alcança mais que flácidos e gangrenados tons que de bom nada têm. Cavalguemos sob flâmulas multicolores, bradando o grito de Rolando, e em chusmas ataquemos o único inimigo, a nossa morte em vida. Prestes, lanceiros, e vós arqueiros retesai bem as cordas, que o adversário é falho de carne que se deixe retalhar pela lâmina, como de resto convém ao vero esqueleto de Tanatos, e faz-se mister que o ferro o despedace certeiro pelo osso, ou ainda o veremos triunfar. Às armas, sobre as selas de engrinaldados corcéis, que a batalha se trava entre a vida e a inércia, e quem sabe se não será esta a batalha final. Às armas, e morra quem hesitar, que quem hesita já está morto!
O inimigo, prudente e covarde, não atacou desassombradamente em campo aberto, antes se esgueirou calado pelas planícies em volta, cercando e cerrando, tudo cobrindo com o seu manto de silêncio. Acostumou as mesnadas a essa fétida quietude, ao ponto de se sobressaltarem já com o menor ruído, e emudecerem elas próprias as buzinas feitas para ecoar valorosamente no campo de lides. Olhai-os agora, tíbios e timoratos de tudo o que os perturbe. O disparo do arcabuz fá-los tremer, e o trovejar dos canhões lança-os em pânico nos braços uns dos outros, como se assim se almofadassem contra os ventos de mudança. Não ousam já dar um passo que o inimigo não sancione, não murmuram uma sílaba que não conste da cartilha. Se amam, sufocam o amor que estrebucha e se queda inerte no altar das convenções. Sofrendo acaso o dever de amar, glorificam a sua ficção para melhor servirem a estabilidade, a conveniência, a sua própria aniquilação. Pois bem, chega!
Se é já passado o tempo dos guerreiros, das armaduras e cores de batalha, sejamos então palhaços. Troquemos as flâmulas multicolores por vestes garridas e pintadas de arco-íris, seja a gargalhada o nosso brado de guerra, e o desprezo a arrogância aguerrida dos nossos dias. Saiamos desavergonhadamente à rua, gritando o que realmente queremos e sentimos, esmagando com passo marcial tudo o que devemos sentir e querer. Vivamos, porque a vida não é algo que nos pertença: é uma batalha que se ganha em cada dia em que não morremos!
E que tu, minha princesa, sejas a recompensa que busco no cimo da torre mais alta, aquela onde só heróis podem chegar.
O inimigo, prudente e covarde, não atacou desassombradamente em campo aberto, antes se esgueirou calado pelas planícies em volta, cercando e cerrando, tudo cobrindo com o seu manto de silêncio. Acostumou as mesnadas a essa fétida quietude, ao ponto de se sobressaltarem já com o menor ruído, e emudecerem elas próprias as buzinas feitas para ecoar valorosamente no campo de lides. Olhai-os agora, tíbios e timoratos de tudo o que os perturbe. O disparo do arcabuz fá-los tremer, e o trovejar dos canhões lança-os em pânico nos braços uns dos outros, como se assim se almofadassem contra os ventos de mudança. Não ousam já dar um passo que o inimigo não sancione, não murmuram uma sílaba que não conste da cartilha. Se amam, sufocam o amor que estrebucha e se queda inerte no altar das convenções. Sofrendo acaso o dever de amar, glorificam a sua ficção para melhor servirem a estabilidade, a conveniência, a sua própria aniquilação. Pois bem, chega!
Se é já passado o tempo dos guerreiros, das armaduras e cores de batalha, sejamos então palhaços. Troquemos as flâmulas multicolores por vestes garridas e pintadas de arco-íris, seja a gargalhada o nosso brado de guerra, e o desprezo a arrogância aguerrida dos nossos dias. Saiamos desavergonhadamente à rua, gritando o que realmente queremos e sentimos, esmagando com passo marcial tudo o que devemos sentir e querer. Vivamos, porque a vida não é algo que nos pertença: é uma batalha que se ganha em cada dia em que não morremos!
E que tu, minha princesa, sejas a recompensa que busco no cimo da torre mais alta, aquela onde só heróis podem chegar.
sábado, 7 de agosto de 2010
O pássaro esparvoado.
O pássaro esparvoado raramente prestava atenção ao que quer que fosse. Um optimismo perfeitamente ridículo dirigia o seu voo em direcção a tudo o que lhe parecesse um bom destino.
O pássaro esparvoado voou num êxtase de alegria em direcção às altas torres que se erguiam sobre as muralhas, pináculos de luz e esplendor, pensou. Tanta diligência pôs na sua empresa que acabou por voar direito às torres, que de imediato desabaram sobre ele.
O pássaro esparvoado não fará mais voos optimistas. Ajuizando pelo estado da asa que desponta de sob uma pedra mais pesada, é mesmo duvidoso que volte a alçar o voo. E antes assim, é bem melhor um pássaro esmagado que um que seja esparvoadamente optimista. O pássaro ganhou juízo, e já nem responde pelo nome de melro. E não é de crer que se meta a voar tão cedo.
O pássaro esparvoado voou num êxtase de alegria em direcção às altas torres que se erguiam sobre as muralhas, pináculos de luz e esplendor, pensou. Tanta diligência pôs na sua empresa que acabou por voar direito às torres, que de imediato desabaram sobre ele.
O pássaro esparvoado não fará mais voos optimistas. Ajuizando pelo estado da asa que desponta de sob uma pedra mais pesada, é mesmo duvidoso que volte a alçar o voo. E antes assim, é bem melhor um pássaro esmagado que um que seja esparvoadamente optimista. O pássaro ganhou juízo, e já nem responde pelo nome de melro. E não é de crer que se meta a voar tão cedo.
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