O Frango:
O frango firmou-se na borda do passeio, unhas cravadas no rebordo empedrado, e olhou para o seu lado esquerdo. Olhou depois para a direita, de novo para a esquerda, e depois repetiu tudo, como se não soubesse que outra coisa fazer. Passavam carros em todas as direcções.
O frango firmou-se ainda melhor, aguardou pacientemente uma pausa no trânsito, e lançou-se em passo de corrida, corrida essa que terminou no traço contínuo que dividia a estrada. Aí se deteve, bico exaurido do ritmo cardíaco acelerado, penas ameaçando voar no sopro dos carros que se precipitavam à sua volta, correndo num sentido os que lhe passavam pela frente, no outro os que o roçavam por trás. O frango firmou as unhas no asfalto, esforçando-se por não ser arrastado por todas aquelas correntes desencontradas.
O trânsito deste lado era pior, o que obrigou o frango a aguardar longamente, até que surgisse uma aberta. Esta foi bastante estreita, e só a rapidez do frango lhe permitiu atingir incólume o passeio oposto. Aí se firmou ofegante, e enquanto ofegava não alcançou evitar a interrogação que ameaçava corroê-lo por dentro: por que razão, na realidade, tinha ele atravessado a estrada?
O Corvo:
O corvo contempla-me sem cessar, negro como eu o contemplo a ele, soturno como cada dia que me vai passando. Não se trata do corvo de Poe, este é um bicho mais calado, que nem se dá ao trabalho de me dar os bons dias, quanto mais de me lançar um casual “Nevermore”. E todavia tudo nele, tudo menos a sua voz, tudo vaticina o meu fim, e me diz que tudo acabou já, e jamais voltará. O corvo seria a minha condenação, se a condenação não tivesse voz.
Tem os olhos vermelhos como carvões, aqueles carvões do Inferno que não existe, não depois da nossa morte. O Inferno vive-se neste mundo, e tem penas muito mais duras que os veros tições do Inferno, vermelhos como os olhos do corvo.
As patas do corvo têm unhas que se cravam na minha carne, enquanto o seu bico me despedaça o coração. Não é por acaso que o corvo me mata, o corvo mata-me porque o quer fazer. E acaba por ser bem sucedido, para além de tudo.
O corvo é um pássaro engraçado, e dá um bom animal de estimação.
Há que enterrar os nossos palhaços, se queremos manter um ar sério... até os elefantes, antes de morrer, têm o cuidado de o fazer em sítio adequado...
sábado, 8 de maio de 2010
sábado, 1 de maio de 2010
Raiva!
Há dias em que, toda a gente o sabe, mais valia ter logo começado por não tirar os cornos da almofada. Dias em que as coisas correm mal, em que o mundo não nos grama, em que só falta mesmo vir um cão e mijar-nos para a perna. Ou então as coisas não são assim tão más como parecem, e somos nós que reagimos epidermicamente a elas, e levamos a mal a mais pequena coisa. Passei hoje um dia desses, e assalta-me a fundada suspeita de que o fenómeno se prolongará por todo o fim-de-semana. Em resumo, sinto-me enraivecido.
A raiva é uma coisa bem diferente da depressão, do aborrecimento, da tristeza ou do descontentamento. Nada disso, a raiva é um vulcão primevo que nos ferve as entranhas, nos cerra os punhos e endurece as mandíbulas, que faz encordoar tendões e pulsar veias que de uso se mantêm discretamente ocultas. É uma vontade de espancar e partir e destruir e escavacar, de negar toda a racionalidade com uma caçadeira em punho, de fundamentar argumentos com uma cadeira pelos cornos abaixo de quem deles discorde.
Não se trata sequer de algo útil ou aceitável, pois não é uma raiva dirigida contra um objectivo quiçá merecedor de tais ataques. Não quer isto dizer que a raiva se não dirija a alvos, mas são alvos escolhidos apenas por capricho, por escolha subjectiva e pessoal, pelo puro enfartamento de sofrer sempre os mesmos jorros fecais sobre uma existência de si própria merdosa. E quando não há já reacção que nos valha, recorremos à raiva como última escolha, ou pelo menos penúltima. Ou então não recorremos, mas algo dentro de nós o acaba por fazer.
Hoje estou enraivecido. Os prognósticos, como se diz em meteorologia, apontam para uma continuação das mesmas condições nos próximos dias. Haverá decerto estragos, que coisas destas nunca passam sem deixar a sua marca, mas não consta que a Prevenção Civil tenha sido posta em alerta. E com boas razões, que nada que aconteça comigo passará de uma mera tempestade local. Mas não reputaria aconselhável estar nesse local, este fim-de-semana.
Só não me digam que estou errado, que não tenho razão. Isto é apenas uma pequena entrada intimista, que descreve um estado de espírito. E eu não tenho qualquer razão. Tenho apenas raiva!
A raiva é uma coisa bem diferente da depressão, do aborrecimento, da tristeza ou do descontentamento. Nada disso, a raiva é um vulcão primevo que nos ferve as entranhas, nos cerra os punhos e endurece as mandíbulas, que faz encordoar tendões e pulsar veias que de uso se mantêm discretamente ocultas. É uma vontade de espancar e partir e destruir e escavacar, de negar toda a racionalidade com uma caçadeira em punho, de fundamentar argumentos com uma cadeira pelos cornos abaixo de quem deles discorde.
Não se trata sequer de algo útil ou aceitável, pois não é uma raiva dirigida contra um objectivo quiçá merecedor de tais ataques. Não quer isto dizer que a raiva se não dirija a alvos, mas são alvos escolhidos apenas por capricho, por escolha subjectiva e pessoal, pelo puro enfartamento de sofrer sempre os mesmos jorros fecais sobre uma existência de si própria merdosa. E quando não há já reacção que nos valha, recorremos à raiva como última escolha, ou pelo menos penúltima. Ou então não recorremos, mas algo dentro de nós o acaba por fazer.
Hoje estou enraivecido. Os prognósticos, como se diz em meteorologia, apontam para uma continuação das mesmas condições nos próximos dias. Haverá decerto estragos, que coisas destas nunca passam sem deixar a sua marca, mas não consta que a Prevenção Civil tenha sido posta em alerta. E com boas razões, que nada que aconteça comigo passará de uma mera tempestade local. Mas não reputaria aconselhável estar nesse local, este fim-de-semana.
Só não me digam que estou errado, que não tenho razão. Isto é apenas uma pequena entrada intimista, que descreve um estado de espírito. E eu não tenho qualquer razão. Tenho apenas raiva!
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Reencontro.
Hoje, uma fada pousou no meu braço:
Eu, mais habituado a outras variações fonéticas da palavra, isto não se dando o caso de serem apenas mosquitos, dei ao desprezo a forma silfídica que não cessava contudo de zumbir. Veio a dita forma, de resto bem agradável, e para mais escassa no vestir, a revelar-se uma fada que encantou o meu dia.
Conduziu-me pelo seu braço pequenino a um éden terrestre, tasca que de resto sobejamente conhecia. Aí regou-me a mim e às amigas que comigo se sentaram, ocupando-se unicamente nessa árdua tarefa de serem minhas amigas, desse néctar que as humanas gentes se vêm forçadas a destilar da cevada, e com resultados francamente positivos, pois o néctar que o bebam os anjos, e que lhes faça um bom proveito. Depois, alguém desligou o mundo, e entrei no sonho.
Voltei num relance a ter vinte anos. Não foi todavia sozinho que embarquei nessa viagem, todos voltamos a ter vinte anos. Num repente, vimo-nos três jovens num mundo jovem de novo, num mundo cuja juventude apreciámos do alto da nossa maturidade, e sobre o qual disparatámos. Rimos, abraçámo-nos, e acho que a Ana chegou a dar pontapés a várias pessoas. Numa palavra, fomos de novo felizes.
Depois a cerveja acabou, as horas expiraram, que os deveres não perdoam, e partimos cada um para seu lado, todos compenetrados da vida quotidiana que nos esperava, cada um ciente de que reencontros como este são a excepção, e nunca a regra.
Trocámos mensagens, trocámos emails, e acabámos convencidos que daríamos um dia a volta a isto, que estes reencontros ainda viriam a ser a regra e não a excepção. A fada no meu braço acenou em acordo, e partimos todos com uma alma nova, isto os que já tinham uma alma velha para oferecer em troca. Os desprovidos como eu ganharam esperança, e aguardam o futuro com mais optimismo, ou apenas com algum, o que não deixa de ser uma melhoria.
A todas as criaturas de fábula que se me revelaram hoje, quero aqui deixar o meu mais sentido Obrigado. Confesso que não sabia que vocês existiam.
Eu, mais habituado a outras variações fonéticas da palavra, isto não se dando o caso de serem apenas mosquitos, dei ao desprezo a forma silfídica que não cessava contudo de zumbir. Veio a dita forma, de resto bem agradável, e para mais escassa no vestir, a revelar-se uma fada que encantou o meu dia.
Conduziu-me pelo seu braço pequenino a um éden terrestre, tasca que de resto sobejamente conhecia. Aí regou-me a mim e às amigas que comigo se sentaram, ocupando-se unicamente nessa árdua tarefa de serem minhas amigas, desse néctar que as humanas gentes se vêm forçadas a destilar da cevada, e com resultados francamente positivos, pois o néctar que o bebam os anjos, e que lhes faça um bom proveito. Depois, alguém desligou o mundo, e entrei no sonho.
Voltei num relance a ter vinte anos. Não foi todavia sozinho que embarquei nessa viagem, todos voltamos a ter vinte anos. Num repente, vimo-nos três jovens num mundo jovem de novo, num mundo cuja juventude apreciámos do alto da nossa maturidade, e sobre o qual disparatámos. Rimos, abraçámo-nos, e acho que a Ana chegou a dar pontapés a várias pessoas. Numa palavra, fomos de novo felizes.
Depois a cerveja acabou, as horas expiraram, que os deveres não perdoam, e partimos cada um para seu lado, todos compenetrados da vida quotidiana que nos esperava, cada um ciente de que reencontros como este são a excepção, e nunca a regra.
Trocámos mensagens, trocámos emails, e acabámos convencidos que daríamos um dia a volta a isto, que estes reencontros ainda viriam a ser a regra e não a excepção. A fada no meu braço acenou em acordo, e partimos todos com uma alma nova, isto os que já tinham uma alma velha para oferecer em troca. Os desprovidos como eu ganharam esperança, e aguardam o futuro com mais optimismo, ou apenas com algum, o que não deixa de ser uma melhoria.
A todas as criaturas de fábula que se me revelaram hoje, quero aqui deixar o meu mais sentido Obrigado. Confesso que não sabia que vocês existiam.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Sem título.
É mentira, o título existe, e está mesmo dentro do poema. Título este que não deixa de ser um abuso e um atrevimento. Mas que hei-de fazer, se sou mesmo assim? E este post, pelo menos, não é deprimente…
Se um dia eu achasse, num repente,
Alma de mim gémea, diferente embora igual,
Nada negando sem exame, tudo pronta a conhecer,
Dando-se como é, tal como eu me dou!
Resistiria eu, e tudo esqueceria?
Acho que sim… mas duvido!
Se um dia eu achasse, num repente,
Alma de mim gémea, diferente embora igual,
Nada negando sem exame, tudo pronta a conhecer,
Dando-se como é, tal como eu me dou!
Resistiria eu, e tudo esqueceria?
Acho que sim… mas duvido!
terça-feira, 30 de março de 2010
Missa de Sétimo Dia.
A numerologia tem desde sempre fascinado a humanidade, e o 7 é aquele número místico entre todos, quantidade sempre recorrente nestes cálculos exotéricos. Conta-se a história do homem que passou todo o seu dia perseguido por esse mesmo número, que a qualquer despropósito lhe aparecia. Finalmente rendido às evidências, acabou por gastar todas as suas poupanças (eram 7 mil dólares), numa aposta do hipódromo; todo o dinheiro que tinha, apostado no cavalo número 7, na sétima corrida. Nem a numerologia nem o cavalo o desiludiram, pelo que o bicho veio a terminar a prova em sétimo lugar! Julgo que há provavelmente uma moral qualquer nesta história.
Vem tudo isto a propósito da próxima quinta-feira santa, que este ano calha adequadamente no dia das mentiras, dia em que se celebram também os sete meses sobre o septuagésimo aniversário da tomada de Varsóvia, que marcou o início da segunda guerra mundial. Setenta anos volvidos sobre o esmagamento da capital polaca pelos exércitos alemães, caí eu próprio, esmagado por coisa nenhuma que se visse. Passando agora sete meses sobre a infausta data, parece-me apropriada uma missa de sétimo dia (sim, eu sei que as unidades são confusas, mas a numerologia é assim mesmo, misteriosa e cabalística).
Tratando-se de uma missa de corpo presente, e para mais de corpo falante, e exibindo toda a aparência de vida, isto se descontarmos a vida toda que se retirou de trás da aparência, deixando esta entregue ao que pudesse fazer por sua conta, deu-se aqui a oportunidade sem dúvida rara de colher um depoimento em primeira mão por parte do falecido. E foi desse modo que me vieram perguntar em que consistia, de facto, esta coisa de perambular cadáver pelo mundo dos vivos. A pergunta deixou-me confuso e indeciso, não pela sua especial dificuldade, mas porque tudo hoje em dia me deixa confuso e indeciso. Se é verdade que morremos por partes, então estou seguro de que as certezas são a primeira coisa a morrer, e mortas as certezas não fica nada, nem sequer a dúvida – só pode ter dúvidas quem tiver certezas. Não, depois de morta a última certeza, fica apenas uma apatia confusa e indiferente, que tão depressa se apresta a salvar a pátria como a morrer pelos seus inimigos, conforme o que aconteça primeiro.
Ganhei um pouco de tempo empurrando com um bom golo de brandy um molho de comprimidos, já não sei bem quais, mas julgo que seriam de facto os correspondentes a essa hora. É difícil distingui-los, pois são uma quantidade deles, de todas as formas e cores, e mais não tendo de comum que a frase inscrita na embalagem, “não ingerir em simultâneo com álcool”. Depois desviei a conversa, e quis saber como eram as coisas vistas pelo outro prisma, que impressão fizera ao mundo o meu passamento. A resposta foi a esperada, Absolutamente nenhuma.
Quis que elaborassem, e não se fizeram rogados. A maioria das pessoas, explicaram-me, laborava na convicção de que eu estaria ainda vivo, talvez por serem as duas alternativas equivalentes, no seu entender. Os poucos que conheciam não ser eu mais já que um lémure, alguém que deixou já de ser, encaravam o facto com aquela resignação aliviada que por uso reservamos para aquelas desgraças lamentáveis que nos fizeram o favor de acontecer a outra pessoa qualquer. É assim, o que se há-de fazer, estamos todos sujeitos a lixarmo-nos um dia, desta vez foi ele, e se deus quiser nunca hei-de ser eu. E a vida continuou.
Cabisbaixo, aceitei o que já sabia. Inquiri ainda se podia ao menos tomar o meu estado de morto definitivo, o meu lugar competente naquele caixão da missa do sétimo dia. Mas responderam-me que nem pensasse nisso. Ao que parece, estava demasiado vivo de corpo para ser um morto, demasiado morto de alma para ser um vivo. Mas então? Então, responderam-me, faz como fizeste quando os tanques de Varsóvia te passaram por cima: aguenta-te, que outro remédio tens tu? Bebe uns copos, toma uns comprimidos, vai misturando isso tudo para ver no que dá. Olha, e para te ires entretendo, escreve umas merdas e publica-as. Não te vai servir de nada, nem esperes que alguém as leia, ou que as entenda se as ler, ou se interesse mesmo no caso de as entender, mas o que mais queres? Mal não te faz, e sempre ajuda a passar o tempo.
Vem tudo isto a propósito da próxima quinta-feira santa, que este ano calha adequadamente no dia das mentiras, dia em que se celebram também os sete meses sobre o septuagésimo aniversário da tomada de Varsóvia, que marcou o início da segunda guerra mundial. Setenta anos volvidos sobre o esmagamento da capital polaca pelos exércitos alemães, caí eu próprio, esmagado por coisa nenhuma que se visse. Passando agora sete meses sobre a infausta data, parece-me apropriada uma missa de sétimo dia (sim, eu sei que as unidades são confusas, mas a numerologia é assim mesmo, misteriosa e cabalística).
Tratando-se de uma missa de corpo presente, e para mais de corpo falante, e exibindo toda a aparência de vida, isto se descontarmos a vida toda que se retirou de trás da aparência, deixando esta entregue ao que pudesse fazer por sua conta, deu-se aqui a oportunidade sem dúvida rara de colher um depoimento em primeira mão por parte do falecido. E foi desse modo que me vieram perguntar em que consistia, de facto, esta coisa de perambular cadáver pelo mundo dos vivos. A pergunta deixou-me confuso e indeciso, não pela sua especial dificuldade, mas porque tudo hoje em dia me deixa confuso e indeciso. Se é verdade que morremos por partes, então estou seguro de que as certezas são a primeira coisa a morrer, e mortas as certezas não fica nada, nem sequer a dúvida – só pode ter dúvidas quem tiver certezas. Não, depois de morta a última certeza, fica apenas uma apatia confusa e indiferente, que tão depressa se apresta a salvar a pátria como a morrer pelos seus inimigos, conforme o que aconteça primeiro.
Ganhei um pouco de tempo empurrando com um bom golo de brandy um molho de comprimidos, já não sei bem quais, mas julgo que seriam de facto os correspondentes a essa hora. É difícil distingui-los, pois são uma quantidade deles, de todas as formas e cores, e mais não tendo de comum que a frase inscrita na embalagem, “não ingerir em simultâneo com álcool”. Depois desviei a conversa, e quis saber como eram as coisas vistas pelo outro prisma, que impressão fizera ao mundo o meu passamento. A resposta foi a esperada, Absolutamente nenhuma.
Quis que elaborassem, e não se fizeram rogados. A maioria das pessoas, explicaram-me, laborava na convicção de que eu estaria ainda vivo, talvez por serem as duas alternativas equivalentes, no seu entender. Os poucos que conheciam não ser eu mais já que um lémure, alguém que deixou já de ser, encaravam o facto com aquela resignação aliviada que por uso reservamos para aquelas desgraças lamentáveis que nos fizeram o favor de acontecer a outra pessoa qualquer. É assim, o que se há-de fazer, estamos todos sujeitos a lixarmo-nos um dia, desta vez foi ele, e se deus quiser nunca hei-de ser eu. E a vida continuou.
Cabisbaixo, aceitei o que já sabia. Inquiri ainda se podia ao menos tomar o meu estado de morto definitivo, o meu lugar competente naquele caixão da missa do sétimo dia. Mas responderam-me que nem pensasse nisso. Ao que parece, estava demasiado vivo de corpo para ser um morto, demasiado morto de alma para ser um vivo. Mas então? Então, responderam-me, faz como fizeste quando os tanques de Varsóvia te passaram por cima: aguenta-te, que outro remédio tens tu? Bebe uns copos, toma uns comprimidos, vai misturando isso tudo para ver no que dá. Olha, e para te ires entretendo, escreve umas merdas e publica-as. Não te vai servir de nada, nem esperes que alguém as leia, ou que as entenda se as ler, ou se interesse mesmo no caso de as entender, mas o que mais queres? Mal não te faz, e sempre ajuda a passar o tempo.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
The sweet bubbling cup
If you gaze at stars all night,
Weeping grieves you dare not name.
If from thyself you seek oblivion,
As from the hope you now forsake!
Then search no more in shallow cups
For an answer that rings true,
Scotch won’t do it, and beer sucks,
Mark my words: hemlock is the thing for you.
Socrates was a great man, good and wise,
And for that reason he got sacked.
Well, rather than argue and suffer fools,
He took the boiling cup, and his foes were smacked.
I’ve seen you fret over love and sweet bliss,
That immortal bond that defies Men’s wit;
Bogus, I tell you, not worth a rat’s piss,
Better drink your poison now, and get it over with.
Some recommend cyanide, a poison that’s more foul,
They say it’s sooner done, but that’s just plain jurassic.
Others pick a bullet, or simply slice their throat;
As for me, it’s hemlock; what can I say? I love a classic!
Weeping grieves you dare not name.
If from thyself you seek oblivion,
As from the hope you now forsake!
Then search no more in shallow cups
For an answer that rings true,
Scotch won’t do it, and beer sucks,
Mark my words: hemlock is the thing for you.
Socrates was a great man, good and wise,
And for that reason he got sacked.
Well, rather than argue and suffer fools,
He took the boiling cup, and his foes were smacked.
I’ve seen you fret over love and sweet bliss,
That immortal bond that defies Men’s wit;
Bogus, I tell you, not worth a rat’s piss,
Better drink your poison now, and get it over with.
Some recommend cyanide, a poison that’s more foul,
They say it’s sooner done, but that’s just plain jurassic.
Others pick a bullet, or simply slice their throat;
As for me, it’s hemlock; what can I say? I love a classic!
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
The show must go on
Um auto-retrato, em traços largos...
No mágico anfiteatro que por igual entretém miúdos e graúdos, triunfando sob a feérica iluminação multicolor, o palhaço domina e simboliza o circo. Em seu redor perfilam-se acrobatas e malabaristas, domadores e feras enjauladas, tudo o que inspira admiração e respeito, temor e reverência, mas o palhaço faz rir. Ninguém gosta particularmente do palhaço, mas toda a gente gosta de rir.
Cada pirueta suscita uma gargalhada, tem espertezas divertidas e fracassos hilariantes. Agora corre pela arena, perseguido pelos comparsas que disparam pistolas de estalinhos, sob cujas balas imaginárias se vai estorcendo em esgares de dor grotesca e caretas patéticas. Nas bancadas, um miúdo inquieta-se, mas logo o tranquilizam, os palhaços são só para rir, não são para levar a sério. Um estalinho mais forte, ressoando num eco mais férreo, pinta uma nódoa vermelha no fato do palhaço, logo abaixo da omoplata.
O trabalho do palhaço fica agora mais fácil, já não precisa de esforço para produzir careta após careta, e as gargalhadas aumentam. O miúdo volta a sobressaltar-se quando o vê cair e rebolar no chão, sobressalto de resto escusado, que bem se vê que o palhaço está só a brincar, como sobejamente provam os comparsas que o cercam, fingindo moê-lo de pauladas. Um silêncio hesita ainda pela tenda, logo no fim do acto, quando o palhaço se deixa ficar caído, e o pai do miúdo aborrece-se, aquilo está a arrastar-se mais do que devia, já se passaram minutos sem que nada fizesse rir. Foi contudo falso alarme, o palhaço rola ainda, ergue as pernas ambas, e contorce-se noutra pirueta. O respeitável público levanta-se e sai, comentando os leões e os trapezistas, os números de qualidade. Um dos miúdos quer ser trapezista quando crescer, e quantos adultos admiram, muito no segredo do seu ego, a glória e o glamour dos domadores. Vão além disso bem-dispostos, por qualquer razão que pouco importa.
Tal como não importa realmente de onde veio a bala que prostrou o palhaço. Há sempre balas na vida de um palhaço, há sempre dor para além do riso, mas o riso está lá para que outros esqueçam a dor, tal como as lantejoulas estão no fato para disfarçar o sangue, e é por isso que os palhaços não sangram. Os palhaços esvaem-se em lantejoulas, enquanto choram às gargalhadas.
O palhaço lá está prostrado, na arena obscurecida. Já só se contorce com a alma, que gira em piruetas tontas pelos labirintos da dor. O hábito já rotineiro fá-lo estancar a ferida, enquanto se prepara para um curto repouso de si mesmo. Curto, necessariamente curto, que o espectáculo seguinte não pode esperar. Já no exterior da tenda se acotovela a próxima leva de espectadores, que vão ao circo para admirar o mágico e os equilibristas e o elefante treinado, mas que não prescindirão de rir do palhaço.
E com toda a justiça, pois vale a pena ir lá só para o ver. É de facto impagável, aquele palhaço.
No mágico anfiteatro que por igual entretém miúdos e graúdos, triunfando sob a feérica iluminação multicolor, o palhaço domina e simboliza o circo. Em seu redor perfilam-se acrobatas e malabaristas, domadores e feras enjauladas, tudo o que inspira admiração e respeito, temor e reverência, mas o palhaço faz rir. Ninguém gosta particularmente do palhaço, mas toda a gente gosta de rir.
Cada pirueta suscita uma gargalhada, tem espertezas divertidas e fracassos hilariantes. Agora corre pela arena, perseguido pelos comparsas que disparam pistolas de estalinhos, sob cujas balas imaginárias se vai estorcendo em esgares de dor grotesca e caretas patéticas. Nas bancadas, um miúdo inquieta-se, mas logo o tranquilizam, os palhaços são só para rir, não são para levar a sério. Um estalinho mais forte, ressoando num eco mais férreo, pinta uma nódoa vermelha no fato do palhaço, logo abaixo da omoplata.
O trabalho do palhaço fica agora mais fácil, já não precisa de esforço para produzir careta após careta, e as gargalhadas aumentam. O miúdo volta a sobressaltar-se quando o vê cair e rebolar no chão, sobressalto de resto escusado, que bem se vê que o palhaço está só a brincar, como sobejamente provam os comparsas que o cercam, fingindo moê-lo de pauladas. Um silêncio hesita ainda pela tenda, logo no fim do acto, quando o palhaço se deixa ficar caído, e o pai do miúdo aborrece-se, aquilo está a arrastar-se mais do que devia, já se passaram minutos sem que nada fizesse rir. Foi contudo falso alarme, o palhaço rola ainda, ergue as pernas ambas, e contorce-se noutra pirueta. O respeitável público levanta-se e sai, comentando os leões e os trapezistas, os números de qualidade. Um dos miúdos quer ser trapezista quando crescer, e quantos adultos admiram, muito no segredo do seu ego, a glória e o glamour dos domadores. Vão além disso bem-dispostos, por qualquer razão que pouco importa.
Tal como não importa realmente de onde veio a bala que prostrou o palhaço. Há sempre balas na vida de um palhaço, há sempre dor para além do riso, mas o riso está lá para que outros esqueçam a dor, tal como as lantejoulas estão no fato para disfarçar o sangue, e é por isso que os palhaços não sangram. Os palhaços esvaem-se em lantejoulas, enquanto choram às gargalhadas.
O palhaço lá está prostrado, na arena obscurecida. Já só se contorce com a alma, que gira em piruetas tontas pelos labirintos da dor. O hábito já rotineiro fá-lo estancar a ferida, enquanto se prepara para um curto repouso de si mesmo. Curto, necessariamente curto, que o espectáculo seguinte não pode esperar. Já no exterior da tenda se acotovela a próxima leva de espectadores, que vão ao circo para admirar o mágico e os equilibristas e o elefante treinado, mas que não prescindirão de rir do palhaço.
E com toda a justiça, pois vale a pena ir lá só para o ver. É de facto impagável, aquele palhaço.
domingo, 13 de dezembro de 2009
Noite
Crepúsculo de sombras, penumbra de agoiros,
Noite velha e repetida, noite gasta,
Noite farta e repisada, onde só a lua é nova.
Já não tenho medo, mas sinto frio.
Nem alegria, nem tristeza aqui já moram,
O sentir escureceu enfim, embotou de bruma.
E só a longes alveja a branca mortalha
De algum fantasma antigo, agora morto.
Não existem lágrimas na escuridão,
Ou se as há, que importa isso?
O pranto cai nas sombras como a árvore na floresta,
E se ninguém o escutar, ele não caiu.
Dizem que é ainda Verão, e faz calor.
Mas não vejo mais surgir a alvorada.
Está a ficar mais escuro, e faz mais frio.
Tanto sol lá fora, e eu de noite!
Noite velha e repetida, noite gasta,
Noite farta e repisada, onde só a lua é nova.
Já não tenho medo, mas sinto frio.
Nem alegria, nem tristeza aqui já moram,
O sentir escureceu enfim, embotou de bruma.
E só a longes alveja a branca mortalha
De algum fantasma antigo, agora morto.
Não existem lágrimas na escuridão,
Ou se as há, que importa isso?
O pranto cai nas sombras como a árvore na floresta,
E se ninguém o escutar, ele não caiu.
Dizem que é ainda Verão, e faz calor.
Mas não vejo mais surgir a alvorada.
Está a ficar mais escuro, e faz mais frio.
Tanto sol lá fora, e eu de noite!
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Imaginary Friend
Tell me, stranger, will you be my friend?
(Though I’m not sure it can be done at all).
But can you gaze upon my barren soul,
And explain to me, in a soothing whisper,
That there’s no reason why this soul should wilt,
And yet no earthly power can prevent it now?
Will you be my voice when I can no longer howl?
Can you lend me your eyes, should tears dry out in mine?
Will you cry in my stead, knowing not why should I wail,
No more than I do, or dare pronounce?
Is it becoming for a friend, is it even proper,
In such a positive world, of facts and sound matter,
To extend me a hand, to share a ghostly burden,
And help me mourn a grief of non-existence?
If you do exist, my friend, if you indeed are real,
And fret not too much over proper ways,
If you dwell not in excess on sane behavior,
And can accept ghastly ghouls that shall remain unnamed.
Then grasp my hand, do come and share my pain deceased,
Nurture my empty sorrow, and taste my hollow tears.
Behold my aimless journey, but do not follow after!
Do what you do, stay off that path of voidness!
Just sit along, and let your sweet voice fill my day.
It shall keep me company, maybe… just maybe…
And I will be your imaginary friend.
(Though I’m not sure it can be done at all).
But can you gaze upon my barren soul,
And explain to me, in a soothing whisper,
That there’s no reason why this soul should wilt,
And yet no earthly power can prevent it now?
Will you be my voice when I can no longer howl?
Can you lend me your eyes, should tears dry out in mine?
Will you cry in my stead, knowing not why should I wail,
No more than I do, or dare pronounce?
Is it becoming for a friend, is it even proper,
In such a positive world, of facts and sound matter,
To extend me a hand, to share a ghostly burden,
And help me mourn a grief of non-existence?
If you do exist, my friend, if you indeed are real,
And fret not too much over proper ways,
If you dwell not in excess on sane behavior,
And can accept ghastly ghouls that shall remain unnamed.
Then grasp my hand, do come and share my pain deceased,
Nurture my empty sorrow, and taste my hollow tears.
Behold my aimless journey, but do not follow after!
Do what you do, stay off that path of voidness!
Just sit along, and let your sweet voice fill my day.
It shall keep me company, maybe… just maybe…
And I will be your imaginary friend.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Aqui Jaz
Alguma coisa morreu hoje. Não estou bem seguro do que terá sido, nem tenho sequer disponível o relato do post-mortem, que se referiria de resto a um cadáver que nem foi ainda encontrado. Na ausência do corpus delicti nada pode ser presumido, mas eu mantenho ainda assim a minha ideia, minto, queria dizer a minha convicção: alguma coisa morreu hoje, e se calhar convinha enterrá-la.
Seria decerto um exagero presumir aqui um crime, ou mesmo uma inconveniência: o que não falta por aí são mortes que apenas redundam no bem geral, vejam-se por exemplo os casos da ténia e do mosquito, ou de certos políticos. A morte não é certamente um problema, não enquanto se não souber com certeza o que morreu. E isso é coisa que desconheço ainda.
Mas tenciono conhecer, e poucas dúvidas me restam de que lá chegarei. Posso eventualmente ter sido eu, caso que não convocará grandes preocupações: basicamente, será apenas outra machadada num cadáver que já ultrapassou qualquer tipo de preocupação com esse tipo de golpe, e de resto qualquer outro tipo, ou qualquer outro golpe.
Ou pode ter sido uma morte diferente, a morte de uma obsessão. Essa poderia ser uma morte interessante, e posso realmente imaginar-me a investigar uma morte desse género. A investigação seria obviamente peada por duas condicionantes, a saber: a. A obsessão morreu de facto? E evidentemente b., Morta a obsessão, o que resta?
O que resta, de facto? Talvez escrever posts, posts sobre a morte de algo.
Alguma coisa morreu hoje. Gostava de estar errado, mas posso ter sido eu.
Seria decerto um exagero presumir aqui um crime, ou mesmo uma inconveniência: o que não falta por aí são mortes que apenas redundam no bem geral, vejam-se por exemplo os casos da ténia e do mosquito, ou de certos políticos. A morte não é certamente um problema, não enquanto se não souber com certeza o que morreu. E isso é coisa que desconheço ainda.
Mas tenciono conhecer, e poucas dúvidas me restam de que lá chegarei. Posso eventualmente ter sido eu, caso que não convocará grandes preocupações: basicamente, será apenas outra machadada num cadáver que já ultrapassou qualquer tipo de preocupação com esse tipo de golpe, e de resto qualquer outro tipo, ou qualquer outro golpe.
Ou pode ter sido uma morte diferente, a morte de uma obsessão. Essa poderia ser uma morte interessante, e posso realmente imaginar-me a investigar uma morte desse género. A investigação seria obviamente peada por duas condicionantes, a saber: a. A obsessão morreu de facto? E evidentemente b., Morta a obsessão, o que resta?
O que resta, de facto? Talvez escrever posts, posts sobre a morte de algo.
Alguma coisa morreu hoje. Gostava de estar errado, mas posso ter sido eu.
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