Sísifo empurrou a rocha, que como sempre rolou até ao sopé do monte, onde se deteve. Agora era sempre a subir, ombros e mãos metidos à tarefa árdua, todo um empurra daqui, não deixes cair dali, mais um metro vencido à escarpa, menos um metro que fica a faltar até ao topo. O caminho é familiar mas nem por isso menos traiçoeiro, e a rocha parece sempre encontrar formas novas de se fazer mais pesada, e renovada malícia no esgueirar-se das mãos que a pretendem suster com firmeza. Mas lá vai subindo, aos poucos e poucos, e aqui temos outro metro superado.
Não tem planos intermédios o declive, mas sempre se encontra aqui e além uma aresta mais saída, precário apoio do penedo que permite a Sísifo algum descanso dos músculos abusados, e uma mão livre com que enxugue o suor da testa, enquanto inspira fundo o fôlego com que há-de arrancar a próxima etapa. Metro após metro, quando não sejam meros centímetros, que sendo progresso tudo vale, mas etapa a etapa, vai-se aproximando o cume.
São sempre os piores, aqueles metros derradeiros em que a escarpa mais semelha uma parede a pique, quase sem suporte para a rocha que assenta agora quase por inteiro nos seus ombros. Mas os músculos retesam-se, a vontade endurece, e a montanha é por fim vencida. A rocha equilibra-se triunfante no topo, para logo rolar livremente pela vertente oposta. Sísifo omite a custo uma palavra menos digna, e segue-a até à planície onde por fim a rocha se põe em descanso.
Sem desanimar, volta a empurrar a rocha para junto da montanha. Já prestes a empreender nova subida, detém-no a voz estridente que se faz ouvir de longe: “Sissi, pára lá de brincar com essa pedra e anda lavar-te, que o almoço está pronto!”. Há que acorrer ao chamado, e a rocha lá fica, rochedo de Sísifo que não se aparta do chão. Por enquanto, que haverá de ter fim o almoço, e novas tentativas se seguirão logo à tarde.
Há que enterrar os nossos palhaços, se queremos manter um ar sério... até os elefantes, antes de morrer, têm o cuidado de o fazer em sítio adequado...
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Tolerâncias de Ponto: carta aberta ao Primeiro-Ministro.
Exmo. Sr. Primeiro-Ministro,
Esperando que esta o encontre de boa saúde, e na muito prezada companhia de todos os seus, tem a presente missiva a intenção de respeitosamente trazer ao conhecimento de Vexa. que, em data a combinar durante as próximas semanas, tenciono soltar um flato.
Não se receia aqui um evento de bufa maior, e é de crer que no todo não se venha a ultrapassar o simples traque. No entanto, considerando que é política do governo que Vexa. superiormente dirige conceder tolerância de ponto à função pública de cada vez que alguém dá um peido, gostaria de combinar previamente com o competente gabinete a melhor data para o evento, por forma a minimizar os transtornos que o mesmo possa causar ao público em geral.
Sendo o peido uma ocupação mais disruptiva da ordem pública do que qualquer cimeira da NATO, e contando ao mesmo tempo com muito mais adeptos do que Sua Santidade o Papa Bento XVI, seria talvez boa ideia considerar-se desde já uma tolerância alargada, que ao próprio dia da função somasse a tarde da véspera e a manhã do dia seguinte, salvaguardando assim a justa proporção das coisas.
Não despiciendo é ainda o facto de não ser o peido uma função exclusiva deste ou daquele cidadão ou momento, antes se tratando de um episódio que tende a ocorrer com alguma frequência. A meu ver, esta questão só pode ser endereçada de uma forma justa pela via de uma tolerância de ponto em regime de continuidade, que se prolongará até que termine a flatulência das nossas classes dirigentes. Talvez então os políticos finalmente esvaziados se decidam a produzir mais do que ar quente, e fazer por fim alguma coisa desta merda.
Grato e obrigado, pede deferimento o cidadão,
Nuno Baptista Coelho.
Esperando que esta o encontre de boa saúde, e na muito prezada companhia de todos os seus, tem a presente missiva a intenção de respeitosamente trazer ao conhecimento de Vexa. que, em data a combinar durante as próximas semanas, tenciono soltar um flato.
Não se receia aqui um evento de bufa maior, e é de crer que no todo não se venha a ultrapassar o simples traque. No entanto, considerando que é política do governo que Vexa. superiormente dirige conceder tolerância de ponto à função pública de cada vez que alguém dá um peido, gostaria de combinar previamente com o competente gabinete a melhor data para o evento, por forma a minimizar os transtornos que o mesmo possa causar ao público em geral.
Sendo o peido uma ocupação mais disruptiva da ordem pública do que qualquer cimeira da NATO, e contando ao mesmo tempo com muito mais adeptos do que Sua Santidade o Papa Bento XVI, seria talvez boa ideia considerar-se desde já uma tolerância alargada, que ao próprio dia da função somasse a tarde da véspera e a manhã do dia seguinte, salvaguardando assim a justa proporção das coisas.
Não despiciendo é ainda o facto de não ser o peido uma função exclusiva deste ou daquele cidadão ou momento, antes se tratando de um episódio que tende a ocorrer com alguma frequência. A meu ver, esta questão só pode ser endereçada de uma forma justa pela via de uma tolerância de ponto em regime de continuidade, que se prolongará até que termine a flatulência das nossas classes dirigentes. Talvez então os políticos finalmente esvaziados se decidam a produzir mais do que ar quente, e fazer por fim alguma coisa desta merda.
Grato e obrigado, pede deferimento o cidadão,
Nuno Baptista Coelho.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Lord of the Wrongs.
Já não acredito em nada. Fui acreditando em menos coisas a cada dia, e hoje não acredito mesmo em nada. É uma chatice não acreditar em nada, fica-se logo sem grande coisa para dizer, até porque não há grande coisa depois do nada. Queria contar uma história, acho que vou mesmo contá-la, mas honestamente não sei se acredito nela. E, no entanto...
Esgueirando-se por entre jornas de um Outono molhado de Inverno, deu-se por artes de fadas e magia um dia radioso de sol e alegria, um dia de fresco Verão, leve e prazenteiro. Por todo esse improvável dia perpassava uma felicidade e leveza como só se encontra em terras de legenda, nas mágicas terras dos elfos e hobbits. E deu-se justamente que um hobbit, ou pelo menos quase um hobbit, uma criatura tão insignificante como um hobbit, mas com um penteado mais decente, adentrou as fronteiras do reino vizinho, terras de Lisboa e Japão, nações estas quase irmãs.
Tal como o seu congénere de uma saga semelhante, também este buscava um vulcão onde derreter o seu anel, aquele anel de poder que forças diabólicas haviam em longínquos tempos forjado. O vulcão não se fez rogado, e nele o hobbit se perdeu ganhando-se a si próprio. Por longos momentos (quem saberá dizer quantos, senão quão poucos), se foram aqueles dois seres de quimera e fantasia ardendo um no outro, a fulgurante chama velada em propício desfiladeiro. Foi a alegria das chamas rompida pelas inesperadas fauces de um monstro, tenebrosa criatura que do nada surdia para os apavorar. O Vulcão gelou por momentos, chegou o hobbit a cambalear desamparado, mas um no outro se recompuseram, e à avantesma opuseram fero combate, do qual saiu malferida a insalubre criatura. E assim se apartaram os feéricos amantes, o vulcão para o seu ígneo leito, o hobbit para as suas florestas enfeitiçadas.
Apenas não estavam lá, essas florestas. Em vez dos seus verdejantes esgalhos e ramagens, viu-se o hobbit projectado em árido deserto, como pela mão de malévolo ciclone. E ainda lá anda, a criatura dos bosques e florestas, arquejando na privação de florestas e bosques. Valha-nos pelo menos que aprendeu a sua lição, e não acredita mais em coisa nenhuma. Descreu de ramagens e pássaros, de sóis radiosos brilhando em riachos cristalinos, de luas túrgidas revendo-se por noites claras em lagoas profundas e radiosas, onde inspiradas rãs fazem concerto com grilos e cigarras. Em nada disto o hobbit acredita já, em nada senão no deserto sem fim, a sua sina que negros fados teceram, e sobretudo no seu vulcão, o vulcão que é a sua outra metade, que nunca deixará de ser o seu outro eu, a sua vida e razão de ser. E quem saberá dizer, nestes confusos meandros de fantasia e ilusão, se não será mais feliz assim!
Esgueirando-se por entre jornas de um Outono molhado de Inverno, deu-se por artes de fadas e magia um dia radioso de sol e alegria, um dia de fresco Verão, leve e prazenteiro. Por todo esse improvável dia perpassava uma felicidade e leveza como só se encontra em terras de legenda, nas mágicas terras dos elfos e hobbits. E deu-se justamente que um hobbit, ou pelo menos quase um hobbit, uma criatura tão insignificante como um hobbit, mas com um penteado mais decente, adentrou as fronteiras do reino vizinho, terras de Lisboa e Japão, nações estas quase irmãs.
Tal como o seu congénere de uma saga semelhante, também este buscava um vulcão onde derreter o seu anel, aquele anel de poder que forças diabólicas haviam em longínquos tempos forjado. O vulcão não se fez rogado, e nele o hobbit se perdeu ganhando-se a si próprio. Por longos momentos (quem saberá dizer quantos, senão quão poucos), se foram aqueles dois seres de quimera e fantasia ardendo um no outro, a fulgurante chama velada em propício desfiladeiro. Foi a alegria das chamas rompida pelas inesperadas fauces de um monstro, tenebrosa criatura que do nada surdia para os apavorar. O Vulcão gelou por momentos, chegou o hobbit a cambalear desamparado, mas um no outro se recompuseram, e à avantesma opuseram fero combate, do qual saiu malferida a insalubre criatura. E assim se apartaram os feéricos amantes, o vulcão para o seu ígneo leito, o hobbit para as suas florestas enfeitiçadas.
Apenas não estavam lá, essas florestas. Em vez dos seus verdejantes esgalhos e ramagens, viu-se o hobbit projectado em árido deserto, como pela mão de malévolo ciclone. E ainda lá anda, a criatura dos bosques e florestas, arquejando na privação de florestas e bosques. Valha-nos pelo menos que aprendeu a sua lição, e não acredita mais em coisa nenhuma. Descreu de ramagens e pássaros, de sóis radiosos brilhando em riachos cristalinos, de luas túrgidas revendo-se por noites claras em lagoas profundas e radiosas, onde inspiradas rãs fazem concerto com grilos e cigarras. Em nada disto o hobbit acredita já, em nada senão no deserto sem fim, a sua sina que negros fados teceram, e sobretudo no seu vulcão, o vulcão que é a sua outra metade, que nunca deixará de ser o seu outro eu, a sua vida e razão de ser. E quem saberá dizer, nestes confusos meandros de fantasia e ilusão, se não será mais feliz assim!
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Alerta!
Às armas, todos em chusma e sem temor nem quebranto, que a hora é de heroísmos. Basta de indiferenças moles, chega de prudência acinzentada, é findo o tempo do decoro sem cor e do bom-tom que não alcança mais que flácidos e gangrenados tons que de bom nada têm. Cavalguemos sob flâmulas multicolores, bradando o grito de Rolando, e em chusmas ataquemos o único inimigo, a nossa morte em vida. Prestes, lanceiros, e vós arqueiros retesai bem as cordas, que o adversário é falho de carne que se deixe retalhar pela lâmina, como de resto convém ao vero esqueleto de Tanatos, e faz-se mister que o ferro o despedace certeiro pelo osso, ou ainda o veremos triunfar. Às armas, sobre as selas de engrinaldados corcéis, que a batalha se trava entre a vida e a inércia, e quem sabe se não será esta a batalha final. Às armas, e morra quem hesitar, que quem hesita já está morto!
O inimigo, prudente e covarde, não atacou desassombradamente em campo aberto, antes se esgueirou calado pelas planícies em volta, cercando e cerrando, tudo cobrindo com o seu manto de silêncio. Acostumou as mesnadas a essa fétida quietude, ao ponto de se sobressaltarem já com o menor ruído, e emudecerem elas próprias as buzinas feitas para ecoar valorosamente no campo de lides. Olhai-os agora, tíbios e timoratos de tudo o que os perturbe. O disparo do arcabuz fá-los tremer, e o trovejar dos canhões lança-os em pânico nos braços uns dos outros, como se assim se almofadassem contra os ventos de mudança. Não ousam já dar um passo que o inimigo não sancione, não murmuram uma sílaba que não conste da cartilha. Se amam, sufocam o amor que estrebucha e se queda inerte no altar das convenções. Sofrendo acaso o dever de amar, glorificam a sua ficção para melhor servirem a estabilidade, a conveniência, a sua própria aniquilação. Pois bem, chega!
Se é já passado o tempo dos guerreiros, das armaduras e cores de batalha, sejamos então palhaços. Troquemos as flâmulas multicolores por vestes garridas e pintadas de arco-íris, seja a gargalhada o nosso brado de guerra, e o desprezo a arrogância aguerrida dos nossos dias. Saiamos desavergonhadamente à rua, gritando o que realmente queremos e sentimos, esmagando com passo marcial tudo o que devemos sentir e querer. Vivamos, porque a vida não é algo que nos pertença: é uma batalha que se ganha em cada dia em que não morremos!
E que tu, minha princesa, sejas a recompensa que busco no cimo da torre mais alta, aquela onde só heróis podem chegar.
O inimigo, prudente e covarde, não atacou desassombradamente em campo aberto, antes se esgueirou calado pelas planícies em volta, cercando e cerrando, tudo cobrindo com o seu manto de silêncio. Acostumou as mesnadas a essa fétida quietude, ao ponto de se sobressaltarem já com o menor ruído, e emudecerem elas próprias as buzinas feitas para ecoar valorosamente no campo de lides. Olhai-os agora, tíbios e timoratos de tudo o que os perturbe. O disparo do arcabuz fá-los tremer, e o trovejar dos canhões lança-os em pânico nos braços uns dos outros, como se assim se almofadassem contra os ventos de mudança. Não ousam já dar um passo que o inimigo não sancione, não murmuram uma sílaba que não conste da cartilha. Se amam, sufocam o amor que estrebucha e se queda inerte no altar das convenções. Sofrendo acaso o dever de amar, glorificam a sua ficção para melhor servirem a estabilidade, a conveniência, a sua própria aniquilação. Pois bem, chega!
Se é já passado o tempo dos guerreiros, das armaduras e cores de batalha, sejamos então palhaços. Troquemos as flâmulas multicolores por vestes garridas e pintadas de arco-íris, seja a gargalhada o nosso brado de guerra, e o desprezo a arrogância aguerrida dos nossos dias. Saiamos desavergonhadamente à rua, gritando o que realmente queremos e sentimos, esmagando com passo marcial tudo o que devemos sentir e querer. Vivamos, porque a vida não é algo que nos pertença: é uma batalha que se ganha em cada dia em que não morremos!
E que tu, minha princesa, sejas a recompensa que busco no cimo da torre mais alta, aquela onde só heróis podem chegar.
sábado, 7 de agosto de 2010
O pássaro esparvoado.
O pássaro esparvoado raramente prestava atenção ao que quer que fosse. Um optimismo perfeitamente ridículo dirigia o seu voo em direcção a tudo o que lhe parecesse um bom destino.
O pássaro esparvoado voou num êxtase de alegria em direcção às altas torres que se erguiam sobre as muralhas, pináculos de luz e esplendor, pensou. Tanta diligência pôs na sua empresa que acabou por voar direito às torres, que de imediato desabaram sobre ele.
O pássaro esparvoado não fará mais voos optimistas. Ajuizando pelo estado da asa que desponta de sob uma pedra mais pesada, é mesmo duvidoso que volte a alçar o voo. E antes assim, é bem melhor um pássaro esmagado que um que seja esparvoadamente optimista. O pássaro ganhou juízo, e já nem responde pelo nome de melro. E não é de crer que se meta a voar tão cedo.
O pássaro esparvoado voou num êxtase de alegria em direcção às altas torres que se erguiam sobre as muralhas, pináculos de luz e esplendor, pensou. Tanta diligência pôs na sua empresa que acabou por voar direito às torres, que de imediato desabaram sobre ele.
O pássaro esparvoado não fará mais voos optimistas. Ajuizando pelo estado da asa que desponta de sob uma pedra mais pesada, é mesmo duvidoso que volte a alçar o voo. E antes assim, é bem melhor um pássaro esmagado que um que seja esparvoadamente optimista. O pássaro ganhou juízo, e já nem responde pelo nome de melro. E não é de crer que se meta a voar tão cedo.
sábado, 31 de julho de 2010
Liturgia.
− Senhor, dizei uma só palavra, e eu serei salvo.
− Vai-te lixar!
− Mas isso não é uma só palavra, Senhor, são três.
− São duas, burro. “Vai-te” conta como uma só palavra.
− Rendo-me à Vossa sabedoria, Senhor. Mas ainda assim, duas palavras não são uma só.
− Isso está correcto, mas os Meus caminhos são misteriosos.
− E além disso… é certo que Vós sois o Caminho, a Verdade e a Vida, mas dizer-me que me vá lixar, enfim, parece-me que…
− Qual foi a parte de “Caminhos Misteriosos” que não percebeste?
− Compreendo agora, Senhor. Então, quando dizeis “Vai-te lixar”, isso significa…
− Significa que quero que te vás lixar. E agora deixa-me em paz, estou a descansar ao Sétimo Dia.
− Mas hoje é terça-feira, Senhor!
− E um pano encharcado nas ventas? Queres um pano encharcado nas ventas?
Oremos!
− Vai-te lixar!
− Mas isso não é uma só palavra, Senhor, são três.
− São duas, burro. “Vai-te” conta como uma só palavra.
− Rendo-me à Vossa sabedoria, Senhor. Mas ainda assim, duas palavras não são uma só.
− Isso está correcto, mas os Meus caminhos são misteriosos.
− E além disso… é certo que Vós sois o Caminho, a Verdade e a Vida, mas dizer-me que me vá lixar, enfim, parece-me que…
− Qual foi a parte de “Caminhos Misteriosos” que não percebeste?
− Compreendo agora, Senhor. Então, quando dizeis “Vai-te lixar”, isso significa…
− Significa que quero que te vás lixar. E agora deixa-me em paz, estou a descansar ao Sétimo Dia.
− Mas hoje é terça-feira, Senhor!
− E um pano encharcado nas ventas? Queres um pano encharcado nas ventas?
Oremos!
terça-feira, 6 de julho de 2010
Da importância do Feng Shui no jogo da malha.
Prosseguindo aqui a nossa jornada de compreensão do oculto, daquela dimensão do Universo que transcende aquilo que os nossos pobres sentidos podem captar, e se esconde para além da mera razão com o astuto estratagema de simplesmente não levar a lado nenhum, falaremos um pouco da milenar arte do Feng Shui.
A própria expressão diz tudo. Feng (mocada) Shui (canela) é um termo que deriva do hábito oriental de usar aquelas mesas baixinhas onde inevitavelmente tropeçamos, ritual a que se segue um divertido percurso feito ao pé-coxinho, e acompanhado por aquelas riquíssimas expressões que a banda desenhada tão correctamente traduz em caracteres chineses. O que apenas prova que tudo isto está relacionado.
Algumas mentes mais prosaicas preferem definir o Feng Shui como sendo, muito simplesmente, a antiga arte de dispor o mobiliário de forma a canalizar da forma mais eficaz as correntes ocultas de boa sorte, que desse modo irão beneficiar o proprietário da dita mobília. Se não é exactamente isto, pelo menos parece-me bem inventado, e não totalmente desprovido de sentido. Com efeito, em me acontecendo ter uma convidada jeitosa do sexo oposto (oposto ao meu, não ao dela), julgo que me trará muito mais sorte um sofá-cama estrategicamente colocado do que, digamos, uma escrivaninha renascentista. Não quero com isto dizer que o Feng Shui se resuma a estas meras questões de alcova, há toda uma miríade de outros detalhes a ter em conta. As cadeiras, por exemplo, devem ser colocadas no chão, para máxima eficácia de uso, e é aconselhável que as portas dos armários e louceiros abram para fora, em vez de, por exemplo, contra a parede.
Pergunta-me agora o paciente leitor, isto é, aquele que chegou até este ponto do texto, mas pergunta-me com toda a cordialidade, dizia eu, que raio tem tudo isto a ver com o jogo da malha? Pois bem, caríssimo leitor, são assuntos intimamente relacionados, diria mesmo que inseparáveis. Para quem duvide desta afirmação, recomendo-lhe que experimente jogar uma partida de malha numa sala densamente mobilada, e que me conte depois como correu. Para minimizar os prejuízos, é aconselhável usar móveis que estejam ainda dentro da garantia. Jarrões chineses e peças de cristal poderão acrescentar toda uma vertente lúdica ao desafio, sobretudo se forem propriedade de outra pessoa qualquer.
Divirtam-se, bom jogo, e boa sorte para todos.
A própria expressão diz tudo. Feng (mocada) Shui (canela) é um termo que deriva do hábito oriental de usar aquelas mesas baixinhas onde inevitavelmente tropeçamos, ritual a que se segue um divertido percurso feito ao pé-coxinho, e acompanhado por aquelas riquíssimas expressões que a banda desenhada tão correctamente traduz em caracteres chineses. O que apenas prova que tudo isto está relacionado.
Algumas mentes mais prosaicas preferem definir o Feng Shui como sendo, muito simplesmente, a antiga arte de dispor o mobiliário de forma a canalizar da forma mais eficaz as correntes ocultas de boa sorte, que desse modo irão beneficiar o proprietário da dita mobília. Se não é exactamente isto, pelo menos parece-me bem inventado, e não totalmente desprovido de sentido. Com efeito, em me acontecendo ter uma convidada jeitosa do sexo oposto (oposto ao meu, não ao dela), julgo que me trará muito mais sorte um sofá-cama estrategicamente colocado do que, digamos, uma escrivaninha renascentista. Não quero com isto dizer que o Feng Shui se resuma a estas meras questões de alcova, há toda uma miríade de outros detalhes a ter em conta. As cadeiras, por exemplo, devem ser colocadas no chão, para máxima eficácia de uso, e é aconselhável que as portas dos armários e louceiros abram para fora, em vez de, por exemplo, contra a parede.
Pergunta-me agora o paciente leitor, isto é, aquele que chegou até este ponto do texto, mas pergunta-me com toda a cordialidade, dizia eu, que raio tem tudo isto a ver com o jogo da malha? Pois bem, caríssimo leitor, são assuntos intimamente relacionados, diria mesmo que inseparáveis. Para quem duvide desta afirmação, recomendo-lhe que experimente jogar uma partida de malha numa sala densamente mobilada, e que me conte depois como correu. Para minimizar os prejuízos, é aconselhável usar móveis que estejam ainda dentro da garantia. Jarrões chineses e peças de cristal poderão acrescentar toda uma vertente lúdica ao desafio, sobretudo se forem propriedade de outra pessoa qualquer.
Divirtam-se, bom jogo, e boa sorte para todos.
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Astrologia, essa ciência perdida.
Está muito na moda, nestes tempos ditos científicos, menosprezar as milenares verdades espirituais, trazidas até nós, mortais sem rumo, por práticas ancestrais como a astrologia, o tarot e o jogo da malha. Proponho-me, numa breve série de posts, restituir a dignidade e a importância a todos estes métodos de conhecimento, começando hoje pela astrologia. Obedecendo a diversos pedidos, o próximo post será dedicado ao jogo da malha.
Pretendem uns quantos iluminados que não há qualquer fundo de verdade na astrologia, e que ninharias absurdas como o código genético e o facto de ter sido abusado em criança serão mais determinantes na formação do indivíduo do que, digamos, o paradeiro de Plutão no momento em que a respectiva mãe abriu as pernas, arrependida já de o ter feito nove meses antes. Ora bem, nada há de mais disparatado.
Os planetas são tudo para nós, comandam o nosso destino e determinam a nossa vida. A única razão porque temos DNA é o facto de ser extremamente difícil colocar um planeta como, digamos, Úrano, dentro do núcleo de uma célula de tamanho vulgar. Assim sendo, o Ser Supremo (não confundir com o ser supremo, que isto sem as maiúsculas perde o efeito todo), mas dizíamos, o Ser Supremo determinou que os planetas exercessem à distância o seu efeito modelador. O que acabou por se revelar uma decisão bastante prática, já que os planetas disponíveis, qualquer coisa como nove ou dez, ficam bastante aquém da procura, que se cifra em cerca de sete mil milhões de almas, todas elas munidas dos respectivos corpos.
A influência dos planetas é patente para qualquer pessoa que encare o assunto sem preconceitos. Assim, verifica-se vezes sem conta que pessoas nascidas sob o signo de Saturno são saturninas, sendo diabólicas as que nascem na sombra de Plutão, quentes as que têm Mercúrio por ascendente, áridas as que dependem de Marte, monstruosamente obesas as que viram o mundo quando Júpiter imperava, e se conhecerem alguma miúda gira que tenha nascido sob a égide de Vénus, mandem-na ter comigo, que eu também dou aulas particulares.
Mas os planetas, importantes como são, não esgotam a essência da astrologia. As constelações desempenham um papel fundamental nestes casos, e é aqui impossível não denunciar as intenções sinistras de todos aqueles que, para servir os seus interesses particulares, persistem em omitir algumas das mais importantes. Só a título de exemplo, toda a gente conhece a Ursa Maior e a Ursa Menor, mas quantas vezes se fala da Ursa Bebé, e da constelação da Miúda Assanhada Com Os Caracóis Dourados Que Lhes Vai Comer As Papas? Estas são sempre omitidas. Como prova, desafio qualquer leitor a dizer-me que já tinha ouvido falar nelas.
Vez por outra ainda se verifica uma ou outra fuga: ainda recentemente, um proeminente ornitólogo cometeu o imperdoável solecismo de referir a constelação do Urso Barnabé, o que lhe valeu o ostracismo generalizado. É de crer que venha a pagar o preço da sua ousadia, e nunca mais volte a escrever sobre pássaros. Mas é já tempo de parar com este silêncio cúmplice, e divulgar a verdade.
Ora recoste-se o leitor num verdejante relvado, por uma límpida noite de Verão. Liberte a sua mente das preocupações mundanas, coisas como as contas cada vez mais altas, os problemas que o assolam no trabalho, e o facto de ter cagado irremediavelmente o seu melhor fato claro, e contemple as estrelas que brilham sobre si. Cedo compreenderá que há muitas constelações, muito mais do que as que lhe foram descritas na escola. Forçoso é reconhecer que nem todas têm a mesma importância. Aquelas três estrelas que ali ao fundo se perfilam num triângulo estreito, uma de cada lado e a terceira em baixo, a meio, não são para levar a sério – trata-se da constelação da Tanga. Mas muitas há que são predominantes nos destinos da humanidade. Veja-se a constelação do saca-rolhas, aquelas sete estrelas numa perfeita linha recta. Tome-se como exemplo a constelação da Trotineta – duas estrelas que ocupam, com uma precisão inacreditável, o lugar dos cubos das rodas. Atente-se na constelação do vendedor de pipocas, uma linha recta com uma estrela por cima, figurando aquela última pipoca, metáfora do destino último da humanidade. Concentremo-nos por último nessa constelação mais complexa, o Gay Com Hemorróidas. Haverá coisa mais expressiva que aqueles dois segmentos verticais que aparentam encostar-se, e do meio dos quais nasce uma chuva de estrelas cadentes? Quem, numa perfeita honestidade, poderá negar intenção e propósito a este espectáculo celestial?
Mas e os homens, perguntam-me. Em que medida esse fulgor de átomos de hidrogénio que diariamente encenam o seu orgasmo nuclear nos pode afectar a nós, pobres mortais? Pois bem, é extremamente simples. Todo este bailado cósmico vem a traduzir-se em doze signos, pelos quais se divide a humana gente. Cada signo tem o seu destino próprio, bem conhecido daqueles que estudaram a sabedoria dos antigos mestres, que a adquiriram dos seus antigos mestres, o que torna pouco claro de onde veio aquilo em primeiro lugar. Mas é sabedoria, pelo que são fúteis quaisquer questões adicionais.
Isto de dividir a população em doze partes iguais tem pelo menos duas tremendas vantagens. Por um lado facilita as previsões – é mais fácil prever o futuro de doze do que de sete mil milhões. Por outro lado, dificulta as críticas. Tudo considerado, ninguém gosta de usar a palavra “duodécimos”. Não, a sério, é uma palavra soez. Na escola onde eu andei, podia-se apanhar uma tareia só por dizer coisas bem mais inofensivas do que “duodécimos”.
Mas as vantagens dos signos são inegáveis. Lendo um trivial horóscopo, ficamos a saber que, de cada grupo de mil e duzentas pessoas, uma centena vai encontrar o verdadeiro amor, outra centena vai perder o emprego, uma terceira centena, enfim, vai partir um membro importante numas férias na neve. Fosse eu administrador de uma empresa com mil e duzentos trabalhadores, e faria questão de me manter a par dos horóscopos. Começava por despedir os cem condenados ao desemprego, que diabo, o horóscopo já os devia ter avisado. Depois despedia os cem da perna partida, que a fábrica não é nenhum asilo de inválidos. A esses juntaria os cem apaixonados, é sabido que um homem apaixonado não produz. Depois disso era uma questão de acompanhar os horóscopos, até encontrar um signo que dissesse, “ a mulher do seu patrão vai apaixonar-se por si”. Quando esse momento chegasse só teria de organizar uma carreira de tiro, com os nativos desse signo a desempenharem um papel de destaque.
Nota: não pretendi ofender ninguém com este post. Os adeptos da astrologia têm tanto direito de acreditar nela como eu tenho o direito de dizer que é uma palermice. Liberdade é isso mesmo. E enquanto os astrólogos não formarem uma organização destinada a sacar ao estado uma fatia dos meus impostos, não tenho problema nenhum com eles. Para as pessoas que prezo, e que sei que têm uma opinião diferente sobre o tema, faço minhas as palavras de John Lennon: “whatever get’s you through the night, it’s alright”.
Pretendem uns quantos iluminados que não há qualquer fundo de verdade na astrologia, e que ninharias absurdas como o código genético e o facto de ter sido abusado em criança serão mais determinantes na formação do indivíduo do que, digamos, o paradeiro de Plutão no momento em que a respectiva mãe abriu as pernas, arrependida já de o ter feito nove meses antes. Ora bem, nada há de mais disparatado.
Os planetas são tudo para nós, comandam o nosso destino e determinam a nossa vida. A única razão porque temos DNA é o facto de ser extremamente difícil colocar um planeta como, digamos, Úrano, dentro do núcleo de uma célula de tamanho vulgar. Assim sendo, o Ser Supremo (não confundir com o ser supremo, que isto sem as maiúsculas perde o efeito todo), mas dizíamos, o Ser Supremo determinou que os planetas exercessem à distância o seu efeito modelador. O que acabou por se revelar uma decisão bastante prática, já que os planetas disponíveis, qualquer coisa como nove ou dez, ficam bastante aquém da procura, que se cifra em cerca de sete mil milhões de almas, todas elas munidas dos respectivos corpos.
A influência dos planetas é patente para qualquer pessoa que encare o assunto sem preconceitos. Assim, verifica-se vezes sem conta que pessoas nascidas sob o signo de Saturno são saturninas, sendo diabólicas as que nascem na sombra de Plutão, quentes as que têm Mercúrio por ascendente, áridas as que dependem de Marte, monstruosamente obesas as que viram o mundo quando Júpiter imperava, e se conhecerem alguma miúda gira que tenha nascido sob a égide de Vénus, mandem-na ter comigo, que eu também dou aulas particulares.
Mas os planetas, importantes como são, não esgotam a essência da astrologia. As constelações desempenham um papel fundamental nestes casos, e é aqui impossível não denunciar as intenções sinistras de todos aqueles que, para servir os seus interesses particulares, persistem em omitir algumas das mais importantes. Só a título de exemplo, toda a gente conhece a Ursa Maior e a Ursa Menor, mas quantas vezes se fala da Ursa Bebé, e da constelação da Miúda Assanhada Com Os Caracóis Dourados Que Lhes Vai Comer As Papas? Estas são sempre omitidas. Como prova, desafio qualquer leitor a dizer-me que já tinha ouvido falar nelas.
Vez por outra ainda se verifica uma ou outra fuga: ainda recentemente, um proeminente ornitólogo cometeu o imperdoável solecismo de referir a constelação do Urso Barnabé, o que lhe valeu o ostracismo generalizado. É de crer que venha a pagar o preço da sua ousadia, e nunca mais volte a escrever sobre pássaros. Mas é já tempo de parar com este silêncio cúmplice, e divulgar a verdade.
Ora recoste-se o leitor num verdejante relvado, por uma límpida noite de Verão. Liberte a sua mente das preocupações mundanas, coisas como as contas cada vez mais altas, os problemas que o assolam no trabalho, e o facto de ter cagado irremediavelmente o seu melhor fato claro, e contemple as estrelas que brilham sobre si. Cedo compreenderá que há muitas constelações, muito mais do que as que lhe foram descritas na escola. Forçoso é reconhecer que nem todas têm a mesma importância. Aquelas três estrelas que ali ao fundo se perfilam num triângulo estreito, uma de cada lado e a terceira em baixo, a meio, não são para levar a sério – trata-se da constelação da Tanga. Mas muitas há que são predominantes nos destinos da humanidade. Veja-se a constelação do saca-rolhas, aquelas sete estrelas numa perfeita linha recta. Tome-se como exemplo a constelação da Trotineta – duas estrelas que ocupam, com uma precisão inacreditável, o lugar dos cubos das rodas. Atente-se na constelação do vendedor de pipocas, uma linha recta com uma estrela por cima, figurando aquela última pipoca, metáfora do destino último da humanidade. Concentremo-nos por último nessa constelação mais complexa, o Gay Com Hemorróidas. Haverá coisa mais expressiva que aqueles dois segmentos verticais que aparentam encostar-se, e do meio dos quais nasce uma chuva de estrelas cadentes? Quem, numa perfeita honestidade, poderá negar intenção e propósito a este espectáculo celestial?
Mas e os homens, perguntam-me. Em que medida esse fulgor de átomos de hidrogénio que diariamente encenam o seu orgasmo nuclear nos pode afectar a nós, pobres mortais? Pois bem, é extremamente simples. Todo este bailado cósmico vem a traduzir-se em doze signos, pelos quais se divide a humana gente. Cada signo tem o seu destino próprio, bem conhecido daqueles que estudaram a sabedoria dos antigos mestres, que a adquiriram dos seus antigos mestres, o que torna pouco claro de onde veio aquilo em primeiro lugar. Mas é sabedoria, pelo que são fúteis quaisquer questões adicionais.
Isto de dividir a população em doze partes iguais tem pelo menos duas tremendas vantagens. Por um lado facilita as previsões – é mais fácil prever o futuro de doze do que de sete mil milhões. Por outro lado, dificulta as críticas. Tudo considerado, ninguém gosta de usar a palavra “duodécimos”. Não, a sério, é uma palavra soez. Na escola onde eu andei, podia-se apanhar uma tareia só por dizer coisas bem mais inofensivas do que “duodécimos”.
Mas as vantagens dos signos são inegáveis. Lendo um trivial horóscopo, ficamos a saber que, de cada grupo de mil e duzentas pessoas, uma centena vai encontrar o verdadeiro amor, outra centena vai perder o emprego, uma terceira centena, enfim, vai partir um membro importante numas férias na neve. Fosse eu administrador de uma empresa com mil e duzentos trabalhadores, e faria questão de me manter a par dos horóscopos. Começava por despedir os cem condenados ao desemprego, que diabo, o horóscopo já os devia ter avisado. Depois despedia os cem da perna partida, que a fábrica não é nenhum asilo de inválidos. A esses juntaria os cem apaixonados, é sabido que um homem apaixonado não produz. Depois disso era uma questão de acompanhar os horóscopos, até encontrar um signo que dissesse, “ a mulher do seu patrão vai apaixonar-se por si”. Quando esse momento chegasse só teria de organizar uma carreira de tiro, com os nativos desse signo a desempenharem um papel de destaque.
Nota: não pretendi ofender ninguém com este post. Os adeptos da astrologia têm tanto direito de acreditar nela como eu tenho o direito de dizer que é uma palermice. Liberdade é isso mesmo. E enquanto os astrólogos não formarem uma organização destinada a sacar ao estado uma fatia dos meus impostos, não tenho problema nenhum com eles. Para as pessoas que prezo, e que sei que têm uma opinião diferente sobre o tema, faço minhas as palavras de John Lennon: “whatever get’s you through the night, it’s alright”.
terça-feira, 22 de junho de 2010
Afinal ainda há mais pássaros.
A Cotovia:
Em toda esta série de posts de carácter marcadamente ornitológico, ressalta de súbito uma omissão estranha e imperdoável. Refiro-me, como é evidente, à maviosa e maravilhosa cotovia, uma das mais prodigiosas criaturas da natureza. Tomemos então a pequena ave nas nossas mãos, e falemos um pouco sobre ela.
É fácil tomar a cotovia nas mãos: é um pássaro pequeno e terno, que se afeiçoa à palma da nossa mão, onde se deixa ficar aconchegado. Que não se tome isto, todavia, como indício de um carácter submisso. A cotovia tem uma forte personalidade, tem ideias muito próprias, e só se submete quando assim o decide.
Astrologicamente, uma das uniões mais interessantes que podemos encontrar entre aves é aquela que se dá entre a cotovia e o melro. Com efeito, o ciclo de postura do melro faz com que todos os seus exemplares nasçam sob o signo da Girafa Mijona. Já a cotovia, reproduzindo-se em épocas diferentes, descobre a luz do dia naquele momento tão especial do ano, quando Saturno se encontra na constelação do Urso Barnabé, mas mortinho por se pôr a andar dali para fora, ainda que lá deixe os anéis. Não é preciso perceber muito de astrologia para ver de imediato toda a multidão de contrastes e semelhanças de que estas criaturas são capazes, quando se juntam.
A cotovia, já aqui o sugerimos, é uma ave de carácter complexo e intrincado. Pode aninhar-se na nossa mão num momento, e alçar um voo sustentado a bicadas no momento seguinte. Vemo-la voar para longe de nós, e a mágoa da sua partida dói mais que todas as bicadas. Ficamos aturdidos a olhar para as mãos vazias, vazios nós mesmos do canto de todos os pássaros. Mas se a cotovia volta, a maravilha do momento sara de pronto as nossas feridas, e rendemo-nos a esse canto que nos encanta, e afagamos avaramente a bela ave, jurando nunca mais permitir que tal volte a acontecer. Mesmo sabendo que vai acontecer.
Quem tem uma cotovia não se preocupa com essas minudências. Quem tem uma cotovia sabe o que tem, e sabe que não precisa de mais nada.
Em toda esta série de posts de carácter marcadamente ornitológico, ressalta de súbito uma omissão estranha e imperdoável. Refiro-me, como é evidente, à maviosa e maravilhosa cotovia, uma das mais prodigiosas criaturas da natureza. Tomemos então a pequena ave nas nossas mãos, e falemos um pouco sobre ela.
É fácil tomar a cotovia nas mãos: é um pássaro pequeno e terno, que se afeiçoa à palma da nossa mão, onde se deixa ficar aconchegado. Que não se tome isto, todavia, como indício de um carácter submisso. A cotovia tem uma forte personalidade, tem ideias muito próprias, e só se submete quando assim o decide.
Astrologicamente, uma das uniões mais interessantes que podemos encontrar entre aves é aquela que se dá entre a cotovia e o melro. Com efeito, o ciclo de postura do melro faz com que todos os seus exemplares nasçam sob o signo da Girafa Mijona. Já a cotovia, reproduzindo-se em épocas diferentes, descobre a luz do dia naquele momento tão especial do ano, quando Saturno se encontra na constelação do Urso Barnabé, mas mortinho por se pôr a andar dali para fora, ainda que lá deixe os anéis. Não é preciso perceber muito de astrologia para ver de imediato toda a multidão de contrastes e semelhanças de que estas criaturas são capazes, quando se juntam.
A cotovia, já aqui o sugerimos, é uma ave de carácter complexo e intrincado. Pode aninhar-se na nossa mão num momento, e alçar um voo sustentado a bicadas no momento seguinte. Vemo-la voar para longe de nós, e a mágoa da sua partida dói mais que todas as bicadas. Ficamos aturdidos a olhar para as mãos vazias, vazios nós mesmos do canto de todos os pássaros. Mas se a cotovia volta, a maravilha do momento sara de pronto as nossas feridas, e rendemo-nos a esse canto que nos encanta, e afagamos avaramente a bela ave, jurando nunca mais permitir que tal volte a acontecer. Mesmo sabendo que vai acontecer.
Quem tem uma cotovia não se preocupa com essas minudências. Quem tem uma cotovia sabe o que tem, e sabe que não precisa de mais nada.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
O fim dos pássaros.
Não haverá mais pássaros. Pairavam ainda dois ou três para juntar à colecção, mas jamais verão a luz do dia. Resta-lhes agora repousar no fundo de uma gaveta, ou onde os enviar o botão de Delete. Os meus pássaros estão extintos, e pela minha mão.
O mundo perdeu a cor e o som, tomou no seu lugar um cinzento angustiante, de uma angústia que nos aperta e espreme o coração, e onde só ressoa um silêncio que me dói. Enfim, é este agora o meu mundo, e todo feito pela minha mão. Fui eu que descorei estes cinzentos, fui eu que extingui aquele som que brilhava. É neste mundo que fiz que eu deverei viver agora.
Não me resta mais agora que suportar a tristeza de um mundo eriçado de árvores esparsas e lúgubres – noto agora que na maioria são figueiras, onde nem uma folha reverdeja. A figueira é uma árvore ligada à traição, o que calha bem aqui. Matei o último pássaro do mundo, e não sei se alguma vez compreenderei porque o fiz.
O mundo perdeu a cor e o som, tomou no seu lugar um cinzento angustiante, de uma angústia que nos aperta e espreme o coração, e onde só ressoa um silêncio que me dói. Enfim, é este agora o meu mundo, e todo feito pela minha mão. Fui eu que descorei estes cinzentos, fui eu que extingui aquele som que brilhava. É neste mundo que fiz que eu deverei viver agora.
Não me resta mais agora que suportar a tristeza de um mundo eriçado de árvores esparsas e lúgubres – noto agora que na maioria são figueiras, onde nem uma folha reverdeja. A figueira é uma árvore ligada à traição, o que calha bem aqui. Matei o último pássaro do mundo, e não sei se alguma vez compreenderei porque o fiz.
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